Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

Solaris – mais um trecho

Posted in Literatura by leonardomeimes on 22/10/2011

Todos sabemos que somos criaturas materiais, sujeitos às leis da fisiologia e da física e nem mesmo a força de todos os nossos sentimentos combinados pode vencer essas leis. Podemos apenas detestá-las. A fé, velha como a vida, dos amantes e dos poetas no poder do amor, que é mais forte que a morte, que finis vitae sed non amoris, é uma mentira inútil e nem mesmo divertida. Teremos, pois, de nos resignar a ser um relógio que mede a passagem do tempo, umas vezes a funcionar bem, outras a precisar de reparação, cujo mecanismo gera o desespero e o amor logo que é posto em funcionamento pelo seu fabricante? Teremos de nos habituar à ideia de que todos os homens revivem velhos tormentos, tormentos esses que ficam cada vez mais profundos porque se vão tornando cômicos com a repetição? Que a existência humana tenha de repetir-se está bem, mas que se repita como uma música em voga ou um disco que um bêbado faz continuamente tocar, enquanto vai metendo moedas na máquina dos discos.

Stanislaw Lem – Solaris

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Snow sobre a ciência…

Posted in Literatura by leonardomeimes on 21/10/2011

– Você acredita na missão da humanidade, não acredita, Kelvin? Está a pôr-me fora? Você também? Você não faz a barba e põe-me fora? E que me diz dos meus avisos, dos meus conselhos? Colegas interestrelares devem ajudar-se uns aos outros! Ouça Kelvin, vamos lá em baixo, abrimos as comportar e chamamos. Talvez nos ouça. Mas qual é o nome dele (se referindo ao Oceano de Solaris)? Demos nomes a todas as estrelas e planetas, embora talvez já tivessem os seus próprios nomes. Que descaramento! Venha, vamos lá em baixo. Vamos gritar-lhe  uma tal descrição da peça que nos pregou que talvez se comova. Fará para nós simetríades de prata, orará em forma de cálculos, enviar-nos-á os seus anjos ensanguentados. Partilhará os nossos problemas e terrores e pedir-nos-á que que o ajudemos a morrer. Já nos está a implorar-nos que o ajudemos a morrer. Você não está a achar graça… mas já sabe que eu sou um brincalhão. Se as pessoas tivessem mais sentido de humor, talvez as coisas tivessem corrido de modo diferente. Sabe o que ele quer fazer? Quer castigar o Oceano, ouvi-lo gritar do topo de todas as suas montanhas ao mesmo tempo Se pensa que ele nunca terá a coragem de apresentar o seu plano àquele punhado de velhos tremelicantes que nos mandaram para aqui para nos redimirmos de pecados que não cometemos, tem razão, ele tem medo. Mas tem medo apenas do pequeno chapéu, não ousa, Fausto não.

Quem é responsável? Que é responsável por esta situação? Gibarian? Giese? Einstein? Platão? Todos criminosos… Repare, num foguetão uma pessoa corre o risco de rebentar como um balão, de congelar ou assar ou de cuspir todo seu sangue numa única golfada, antes mesmo de poder gritar e tudo o que sobra são bocadinhos de osso a flutuar dentro de cascos blindados, de acordo com as leis de Newton, corrigidas por Einstein, dois marcos milenários do nosso progresso… Seguimos pela estrada fora, cheios de fé e vemos onde nos conduz. Pense no nosso sucesso, Kelvin; pense nas nossas cabinas, nos pratos inquebráveis, nas pias imortais, legiões de fiéis quada-roupas, dedicados armários… Se não tivesse bêbado, não estaria a falar desta maneira, mas mais cedo ou mais tarde alguém tinha de dizer essas coisas, não é? Você fica aí sentado como um cordeiro num matadouro e deixa a barba crescer… De quem é a culpa? Descubra-o você mesmo.

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Sonho de Kris Kelvin – Stanislaw Lem (do livro Solaris)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 20/10/2011

É assim que o sonho começa.

Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiscência e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo e nunca sinto o mínimo temor.

Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objecto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me e sou tocado, a minha prisão é tocada e sinto esse contacto como uma mãe. Essa mão recria-me. até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora os tenho! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e face emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar – existo. Uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca antes vira, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar-lhe o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos e num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade , descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura – uma mulher? – permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de umas coisas negras e rastejantes e sou – somos – uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim. Nessa infinidade, não, eu sou infinito e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Sou dispersado em todas as direções e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega à distância escura e encarnada, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.

Esse sonho foi um dos mais simples.

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