Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

SULA

Posted in Contos, Textos Próprios by leonardomeimes on 16/06/2011

            Lá ia Sula, sempre às voltas com seu vestido rasgado e sua loucura instável. Andava descalça de corcova sempre em riste, quase agachada, arrastando as mãos no chão em busca do que apanhar e olhando freneticamente para os lados como se escondesse algo. Do que restou ela vivia, a mulher não tinha que se preocupar com mais nada e seu rosto era a prova viva: antes maculado com grandes roxos de violência, porém, naqueles dias, andava sujo e ranhento, como uma criança que causa náusea. Sula sempre tinha as calças embosteadas e o cheiro acompanhava.

            Apanhava, diziam, sempre se ouviam gritos e loucuras, ambos que moravam naquela casa indigente, de madeira e de terreno mal cuidado, eram perturbados de maneira que não sobrava entendimento pacífico. Sula devia sua loucura às constantes sovas. O marido, um russo cujo nome ignoro, era carvoeiro, mal garantia a comida, proibia que Sula saísse e que trabalhasse, chegava sempre soluçando com as palmas já esticadas e prontas para serem dadas. E eram muitas.

            Sem ninguém para controlar o cotidiano absurdo dos dois, eles ali ficavam e se entregavam à loucura recíproca. De minha casa, quase em frente, era possível ver parte do quintal e a entrada da casa, havia mato, muita madeira, sacolas com lixo para todo lado, pneus e entulhos de obra. O terreno emana cheiro de bicho morto, cercado com uma cerca farpada, já caída em parte, e, apenas na frente, um muro baixo e cinza. Os ratos e baratas são comuns àquela casa, em que nem mesmo as janelas têm vidros mais.

            Em nossa rua, poucos falavam com o casal, Sula, nome que descobri apenas depois de ela ser levada pela polícia, não conseguia ter contato com ninguém e ficava sempre dentro dos limites de casa. O marido pouco falava nossa língua e ademais estava sempre bêbado, quando não estava fora trabalhando. Em um mês os moradores que se aborreciam com a presença desagradável de ambos se viram livres do tormento. Começou quando o homem desapareceu…

            Até então, grande parte da vizinhança evitava notar a presença de ambos, porém foram obrigados, a partir do sumiço do homem, a conviver com Sula. A mulher, sem ter do que viver, perturbava a vizinhança, ai a náusea que as pessoas tinham quando ela lhes pedia comida! Sula era uma visão desagradável, o rosto retorcido por uma dor constante, tinha uma mão sempre posta acima do peito como se algo ali estivesse segurando; o nariz estremecia enquanto Sula buscava em sua insanidade as expressões necessárias. O mau cheiro agredia as narinas acostumadas aos perfumes, ninguém permitia que a mulher chegasse a suas casas, ao contrário, lhe entregavam algo para comer sem olhar, segurando a respiração e pensando em qualquer outra coisa, antes que o nojo fosse demais. Sula era grande parte do dia silenciosa e para mendigar não falava, para isso tinha os olhos.

            As calças de Sula, sempre com o fundilho molhado, não a permitiam caminhar por muito tempo e caiam, o que a forçava a manter-se parada. Por isso, comia sempre sentada na tampa de cimento de um poço, no quintal de sua casa. De fato, naquele mês, passou a maior parte do tempo ali. Olhava para os lados e não mexia mais do que o pescoço, constantemente procurando ou esperando algo que não lhe aparecia e a boca entoava múrmuros mudos e constantes. Aquela cena se repetiu todos os dias como se a louca estivesse amaldiçoando a todos enquanto notava a imensa insanidade que também havia fora de sua casa.

            O poço antigo era antes usado por toda a vizinhança, agora estava sempre fechado, o progresso havia chegado e com ele a água corrente. Se já não tinham motivos para usá-lo, agora não tinham motivos nem para pensar em sua existência. Aquela constante náusea chegou a um veredito, os moradores começaram a ignorar a mulher, não lhe alimentavam e sequer saiam de casa para atendê-la. Sula deve ter passado dias sem comer. Foi, então, que eu entrei nessa história, ao passar pela frente da casa e do terreno vi algo que não merecia ser contado.

            Nossos bueiros sempre contavam com a presença de ratazanas, os bichos iam de um para o outro e cruzavam a rua como pedestres, principalmente durante a noite. Já estava acostumado a ver esses hóspedes indesejados e a correr atrás deles fazendo-os apressarem-se para os bueiros; porém quando os encontrava mortos eu era impelido a retirar aquela carcaça de meu convívio e a atirava mato à dentro, no terreno ao lado da casa de Sula. Pegava-o pelo rabo, fazia um giro com o braço e atirava longe. Quando era atropelamento a ânsia era maior, tinha que descolar aquele corpo do asfalto com um pedaço de pau e uma pá para depois poder desová-lo.

            Nesse dia, quando voltava da casa de um amigo, ao chegar a minha rua vi Sula parada em frente a sua casa, olhando para algo no asfalto. Aos poucos fui me aproximando para entrar em casa e a imagem foi ficando cada vez mais nítida. A mulher tinha as calças arreadas, provavelmente caídas, as mãos mexiam constantemente nos cabelos, os músculos das pernas se comprimiam incessantemente como se latejassem e os olhos estavam fixos no chão, em uma ratazana morta. Pensei em parar, porém não queria presenciar aquela loucura e então corri até o portão de minha casa. Entrei, fechei-o por dentro, dele vi Sula, na mesma posição, arrancar os cabelos em movimentos constantes, seus dentes rangiam fazia-me encolher meus ombros, uma agonia. Corri para dentro de casa.

            Contei para minha mãe, logo ela estava em frente de casa gritando para que a mulher parasse e atraindo a atenção de toda vizinhança que aos poucos foi saindo de casa para presenciar o que era inevitável. Embora minha mãe não quisesse que eu visse, aproveitei que anoitecia e saí sem ser percebido de casa e vi todo o desenrolar da situação de cima do muro. Sula, ignorando os gritos de mamãe, decidiu-se, parou de arrancar os cabelos, abaixou-se e lançou mão do corpo do rato para, em seguida, morder-lhe a barriga. A boca mastigava com gosto e seus olhos não desgrudavam daquela refeição.

            Um de meus vizinhos chamou a polícia que demorou um bocado a chegar, nisso Sula entrou em sua casa e sentou-se na tampa do poço, ali terminou sua refeição e, depois, se dedicou a esfolar com as unhas o cimento. Os dois policiais entraram pelo portão de sua casa, olharam para tudo que ali estava jogado no quintal, a quantidade de lixo e encontraram a mulher atormentada. Sula ao vê-los entrou em pânico, começou a gritar coisas não compreensíveis, como se contasse uma história absurda em outra língua, batia os pés de pé em cima da tampa do poço e, com os braços estendidos, não permitia que os homens chegassem próximo.

            Sem saber o que fazer um dos policiais levantou um revólver e deu dois tiros para o alto, todos que presenciavam estremeceram e recuaram de susto, Sula disparou a correr pelo quintal da casa, sem as calças que caíram por completo. Quando a mulher entrou correndo em casa os policiais foram atrás e saíram de lá carregando a mulher desmaiada. Finalmente o tormento parecia ter chegado ao fim.

            Para mim ainda não, intrigado pela loucura daquela mulher decidi ir até a casa um dia à tarde. Pulei o portão para não fazer nenhum barulho e, passando pelo jardim sem atentar, encontrei a porta amigavelmente aberta. Dentro, uma sala, coberta de jornais, revistas, sacolas de lixo, embalagens usadas de comida e um fedor de podre que se misturava com cheiro de mofo. Todos os cômodos estavam igualmente arrumados e o quarto de Sula não era diferente, a cama estava quebrada, caída para um lado, em cima muita imundice, o casal nunca deve ter levado o lixo para fora.

            Ao fazer a volta para sair reparei nas paredes, estavam todas escritas, arranhadas na madeira com algo pontiagudo, palavras irreconhecíveis, não entendê-las me fez sentir a cabeça inchar e doer. Logo percebi que se me demorasse ali terminaria louco, como Sula. Corri para fora da casa, fazendo um barulho grande pelo chão de madeira e logo estava no jardim novamente, parei ofegante e coloquei minhas mãos sobre os joelhos descansando. Nisso lembrei-me, que no dia em que a levaram, a louca arranhara insandecidamente a tampa do poço. Decidi ir investigar.

            Passei pelo quintal desviando de tudo que havia ali, abrindo passagem em meio aos entulhos e às plantas e, finalmente, cheguei até o poço. Aproximei-me devagar sem saber o que encontraria e logo pude observar a parte de cima da tampa, havia marcas de sangue, provavelmente das unhas que a louca havia arrancado enquanto arranhava. Havia certo cheiro de podre no ar e muitas moscas, consegui ver que a tampa estava um pouco fora de seu lugar, deixando uma estreita parte do poço aberta. Ao chegar perto dessa fenda senti o cheiro aumentar e as moscas saíam e entravam por aquele espaço freneticamente.

            Pensei em abrir a tampa por completo, por sorte o nojo tomou conta de meu corpo, estremeci pensando no que podia estar ali dentro e daquele ponto de vista reconheci o que Sula havia arranhado em cima da tampa. Uma cruz era pouco visível, a mulher não conseguira terminar o desenho, portanto, algumas partes eram muito fracas e isso impediu que os policiais entendessem a que o poço se prestaria a partir de então.

            Sula havia respondido à violência que sofria com violência e sepultado, ali, o motivo de seu tormento. Para que esse passado não voltasse a atormentá-la empurrei a tampa fechando por completo o poço, ao sair da casa me comprometi a não contar a ninguém e, no fim, senti um apego estranho pela figura daquela louca e um remorso latente. Afinal, fomos todos cúmplices daquele crime.

Leonardo Meimes

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DA TERRA AO CAOS (fim)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 25/09/2010

A terra tremeu aos pés dos homens. Rachou e se dividiu em várias porções enormes à deriva. Na vila, situada em uma dessas porções, as pessoas sentiram uma forte dor em seus ouvidos e ao cessar do lamento já não conseguiam se entender em palavras. Cada um dos irmãos e suas famílias começaram a se desentender, suas vozes eram de um absurdo total e foi necessário que cada família fosse para um canto do mundo para que não brigassem. Levaram consigo, sua forma de falar, suas especialidades, suas crenças e cada um seu nome diferente para o ser que havia perturbado uma paz que reinava há anos. Os animais também passaram pelo mesmo processo e ao término do lamento não se entendiam mais. As vacas em vez de falar a língua dos homens mugiam, os lobos uivavam e todos tentaram desesperadamente dialogar, mas já não era possível.

Mica deitou e chorou. Sua mulher não resistiu ao parto. A criança, soluçando ao fim do lamento, foi então alçada em vôo por um abutre que a levou para longe. A terra se curou, abasteceu-se de novas vidas já abundantes e prosperou, porém nunca mais se livrou da sombra causada pelo garoto. O abutre muito velho e perspicaz criou o menino, alimentou-o e ajudou a crescer quem nós chamamos hoje por vários nomes, todos semelhantes pelo ar sombrio e pesaroso.

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DA TERRA AO CAOS (pt. 3)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 23/09/2010

Vieram vários animais, cada um ao seu ritmo e ofereceram ajuda a Mica na escolha do nome. Mica expressou seu desejo por um nome animal, pois queria que seu filho tivesse intimidade no lido com esses. Talvez numa homenagem à seu irmão morto escolheu o nome Cordeiro. Olhou para os lados procurando entre os animais um cordeiro para pedir-lhe permissão e como não havia ali um desses foi escolhido o nome. Os animais ali concordaram, pois cada um tinha seu motivo em não dar seu nome à criança que havia desencadeado tal desordem, mesmo antes de nascer. Cordeiro de imediato começou a chorar mais alto. A criança se contraia e corava como se o estivessem torturando. Então Mica retirou-lhe o nome e tudo voltou ao normal, a criança olhava para os lados com uma feição indagativa. Não se fez consenso sobre o nome que o menino receberia e nem haveria tempo para tal, pois três homens chegaram à caverna, cada um montado um animal.

Mica não reconheceu nenhum deles como um de seus irmãos e perguntou-lhes de onde vinham. Os três se aproximaram e em rima e verso responderam:

O primeiro:

“Sou o rei do alto ocidente!

Venho aqui presentear a criança com ouro!

Ó mestre, que nasceu para reinar valente

Sobre toda a vida existente!”

Estava montado sobre um lindo mustangue e usava roupas azuladas com detalhes em vermelho.

“serás, ó Rei, o mais temido entre os homens!”

O segundo:

“Sou o rei do alto oriente!

Venho lhe presentear com negra especiaria

Que a sede com a fome sacia!

Ó grão mestre dos futuros sentimentos!”

Desceu de seu camelo, pôs seu turbante ao lado do garoto e ajudou o pequeno a beber o viscoso liquido negro.

“serás o mais temido entre os homens, ó Rei!”

O terceiro:

“Sou o rei do sul do mundo!

Venho lhe trazer a influência

que mantém-me o poder!

Pois no mundo só tu,

Mestre das manipulações,

Terá mais poder!”

Desceu de seu jegue, pegou a criança e lhe deu um beijo.

“serás entre os homens o mais temido, ó Rei!”

E sorrateiramente guardou o ouro debaixo de seu casaco.

Tais gloriosos reis seguiram seu caminho terminando o maior ato de reverência a um ser já feito até aquele momento na história. Mica estava abismado com o destino que Deus havia dado à sua criança. Uma dúvida agora pairava a mente de todos os animais, que nome haveria de ter tão grande rei!? Os animais estavam ansiosos e cada um queria agora que seu nome fosse dado à criança, entusiasmados pelas previsões dos reis. Começaram a declamar.

O Cão:

“Serás Cão!

Pois sua voz soará como um rosnar assustador

para quem se atrever a atrapalhar seu destino!”

O Bode:

“Serás Bode!

Pois terá a sabedoria que um líder precisa para

Acabar com seus rivais!”

Um Morcego ali alojado:

“Serás Príncipe das Trevas!

Pois não terá medo de infligir a escuridão,

que seus inimigos tanto temem, como um Morcego!”

O Lobo:

“Serás Besta!

Pois terá a fúria e a impiedade que só os Lobos têm!”

O Porco:

“Serás Sujo!

Pois assim manterá longe qualquer indesejado rival,

como fazem os Porcos!”

Seguiram falando depois o gato-preto, a serpente, a mariposa, o dragão, o escorpião e a aranha. Travaram os animais uma discussão em que decidiram chamar o menino de Mestre. Só que as consequências daquela noite acabaram por irritar o garoto. Após tantos nomes serem dados a criança se contraiu em um gesto e com um lamento ainda mais alto que o primeiro amaldiçoou a todos…

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DA TERRA AO CAOS (pt. 2)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 22/09/2010

Em um encontro mais do que desnecessário Mica rogou ao piedoso Balé que fosse junto dele pedir a Deus que fosse permitida a cria, que Balé explicasse ao onipotente que não tinha planos de ter filhos e que não podia dessa forma o seu destino estar entrelaçado ao do irmão ou o mais velho nunca teria seu desejo satisfeito. Improvisaram um altar, com fogo e ervas essenciais, que espalharam um cheiro que qualquer um cederia. Balé procurou o bezerro mais bonito dentre suas criações, pediu-lhe encarecidamente que participasse do sacrifício e não sendo respondido pelo animal julgou que tudo ia bem. Mica recolheu mais frutas e verdes diversos do que antes e produziu um belo arranjo para a oferenda. Ao amanhecer eles começaram a oferenda e o sacrifício, chamando Deus que lhes ouvisse. Mais uma vez Deus disse que a intenção era boa, porém o destino dos dois estava mais entrelaçado do que o de qualquer dos outros irmãos e que fruto de tal destino haveria de se cumprir para que o mundo fosse completo. Mica enraivecido outra vez perguntou a Deus de punhos cerrados e num suplicante gorgolejo se havia meio de sua vontade ser atendida de alguma forma. Deus lhe disse que só com o maior ato de amor e devoção à sua pessoa o destino poderia ser cumprido.

Mica olhou ara seu irmão ali ao seu lado ajoelhado, e bradou a Deus, “Ó Deus, lhe ofereço a vida de meu irmão e cometo uma grande ofensa para provar que faço tudo por minha vontade”. Agarrou Balé pelos ombros e desferiu mortal golpe em seu irmão. Balé ali jazia e a voz de Deus não foi mais ouvida por Mica.

Mica explicou aos outros irmãos que Balé havia se sacrificado para que Deus lhe concedesse a graça da prole e que em nove meses nasceria a criança. Porém tais meses foram de incrível solidão para Mica, que não tinha coragem de olhar para o rosto dos irmãos e já tinha perdido a vontade de plantar e colher, aderindo ao hábito de andar só à noite, hábito que antes lhe causava repulsa, mas agora era muito reconfortante. Sua mulher foi cada vez mais apresentando os sinais da gravidez. Em três meses já tinha uma barriga e mal podia se mover. Fatos estranhos tomaram vez. Havia uma espécie de pássaros que ajudava os homens no laboro com a terra, plantando e espalhando sementes, esses já não eram mais vistos, assim como mais cinco outras espécies, incluindo roedores, peixes e miúdos. No sexto mês as pragas começaram e atacaram as lavouras, uma em cada mês que a criança crescia. Ao término dos nove meses, o irmão poeta já havia cantado as seis tragédias ali ocorridas, em lindas métricas por ele inventadas.

A criança nasceu em uma caverna, onde Mica decidira se instalar. O leito era de pedra sem nada para confortar o bebê. A esposa não teve coragem de chamar os outros irmãos para ver sua criança. Era um menino, de bom peso e boa aparência, porém estavam com dúvidas na escolha do nome. A criança depois de horas sem um nome começou a chorar. De grande altura foi o choro e os animais notaram que uma nova vida havia surgido, curiosos vieram visitar…

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DA TERRA AO CAOS (pt. 1)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 21/09/2010

Publicarei em partes um conto que fiz há muito tempo sobre as origens (mitológicas) do mal. Lógico que não sendo religioso, e tendo o catolicismo como a única religião que conheço as histórias, utilizei de algumas intertextualidades bíblicas para criar a minha própria história.

DA TERRA AO CAOS

Adão e Eva

Adão e Eva

A terra era menina demais, pois a história remonta aos longínquos anos em que os homens ainda se dedicavam a vida pacata. O mundo humano se resumia a uma família e a porção de terra conhecida ainda era confortantemente parecida com o paraíso. Na vila, a única, se via uma grande casa cercada por pequenas construções de um cômodo e de campos abertos, onde todos cuidavam do ofício de serem pastores ou cultivadores. Não foram sempre pastores, mas após o irmão mais novo começar a tradição, de criar, cuidar e finalmente usufruir da vida animal, muitos o seguiram. Dantes fora mais pacata suas vidas, resumidas às sombras e florestas de onde retiravam o sustento usufruindo das suculentas frutas e delícias que com a terra afloravam. Agora, ali, os animais eram, sim, pastoreados, as ovelhas e os pequenos borregos caminhavam tranquilamente, sem perceber as intenções de seus pastores, que não deixavam de ser boas. Apenas o necessário era utilizado, pouca mata havia sido derrubada, poucas casas feitas de barro e de alguns fragmentos de madeira encontrados já ao chão eram visíveis. O campo não era dividido em áreas, toda área era comum, porém os animais obedeciam apenas a seus pastores. As famílias, provenientes do mesmo pai e mãe, conviviam, aliás, desdenhas ainda não haviam sido criadas entre os viventes, só entre os viventes e os criadores.

Caim e ABel

Caim e Abel

O primeiro filho nascido na terra, um grande homem, de barbas espessas e um apetite voraz por tudo que da terra provinha, foi o primeiro agricultor. Tinha um nome da terra e se chamava Mica. Arou os campos e refez a terra de modo que tudo o que plantasse, crescia. Ao término de alguns anos, na família santa, havia mais de dez filhos, cada um com sua família e rebanho. Porém à Mica, o velho, não foi dada a graça de uma esposa fértil. Cada um dos irmãos de seu jeito ajudava a crescer a espécie humana, porém Mica e o mais novo, Balé, ainda não tinham plantado raiz na terra. O mais novo, magro, frágil e por muitas vezes pensativo, foi quem descobriu a arte de lidar com os animais, de alimentá-los e mais por necessidade do que por perversidade, de os sacrificar para fartura das famílias. Esse irmão, porém, ainda era novo e havia a pouco se casado com uma de suas irmãs, também muito nova e planejavam viver sem constituir família, ajudando e trabalhando para o bem de todos os outros.

Caim e Abel

Caim e Abel

O irrequieto e voraz Mica decidiu então pedir, suplicar, a Deus que lhe fizesse a graça de lhe conceder um filho. Recolheu então bonitas frutas, fez ramos de trigo, e pediu que sua mulher fizesse doces e especiarias para que fossem oferecidas a Deus num apelo. Armou um templo com as gostosuras da terra que nem ele, acostumado a ver tanta fartura, resistiria a qualquer desejo que lhe fosse pedido. Porém Deus, ao contemplá-lo em tal fervorosidade, respondeu que ele seria o último dos irmãos a ter uma progênie, pois seu trabalho como agricultor era o mais importante dentre os que eram desenvolvidos entre os irmãos e não podia ser incomodado. Ficou assim enraivecido o brutal Mica, suas veias saltaram e ele num feroz balbucio despejou desvairadas injurias a tudo e todos. Principalmente ao irmão menor, Balé, que não tinha em mente a constituição de uma família, impossibilitando assim que pudesse procriar.

Em um encontro mais do que desnecessário Mica rogou ao piedoso Balé que fosse junto dele pedir a Deus que fosse permitida a cria, que Balé explicasse ao onipotente que não tinha planos de ter filhos…

(continua…)

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AMA DE LEITE

Posted in Literatura, Uncategorized by leonardomeimes on 08/07/2010
Mulher nua

Mulher nua

Um garoto fuçava o lixo, farejando qualquer resto que lhe pudesse forrar o bucho, ainda não colhera nada desde que se levantou o sol, o único a lhe esquentar o estômago e as enxaquecas até aquele momento. Se lhe faltava o sol a situação agravava, sentia calafrios em pensar nas noites chuvosas da capital dos pinheirais, roupas grudentas umedecidas, a geada que enevava a grama. Tossia. Não havia cura para o mal que lhe espreitava, para a morte esgueira, para o sofrimento desumanizador e inevitável. Destino que lhe perturbava. Tão grande era seu medo do frio! Porém, maior o da morte…

Caminhava sonâmbulo sem atinar para o destino, sabia do inevitável, cuidava de alimentar a fome para não morrer de angústia, sofria o que tinha de sofrer para não se lembrar da sorte. As pernas arrastavam-se sem fôlego, queriam logo ficar estáticas, mudas, e trançavam-se num movimento epiléptico quando as cãibras o lembravam de que ainda vivia. O garoto se refrescava a sombra das árvores, nos toldos das lojas e à noite para dormir se escondia em baixo das estátuas. Os olhos exalavam o frio; frio que denunciava a alma; sabia que de alma o corpo havia se despido há muito tempo, afinal sem nome, sem família e prostituído à vida, sobrava o quê? Havia resistente a tosse…

Homem nu

Homem nu

Isso, dele já era certo, adiaria o quanto pudesse. Corria mais uma vez os olhos pelas sacolas de uma lanchonete, competindo com pombos; sorvia água da poça, da fonte em que cavalos gorfavam e se limpava mergulhando no chafariz da Santos Andrade. Espalhava-se sobre a cidade como um espectador coadjuvante, não se dirigia a ninguém e os outros fingiam que ele não vivia. Uma não-convivência pacífica. Apesar disso, tinha bisbilhotice pelas pessoas, e que forma mais fácil de conhecer alguém do que chafurdando seu lixo! Guardava uma infinidade de objetos: pentes, muitos laços, flores de plástico, mimos, um colar com pérolas de plástico! Acreditava presentear uma futura companheira com a joia. Ao sair desse mundo, caía em meio à geleiras humanas, à uma tosse magra, a um fado triste. Tinha horror a guardas, viviam lhe cutucando enquanto dormia, caçavam-lhe após os banhos de chafariz e o olhavam sempre com desdém.

Homem nu

Homem nu

Naquele dia o rapaz tinha intento, tinha um anseio, um destino… Queria longe dele a dama gótica que lhe caçoava a cada tropeço. Ao anoitecer juntou tudo que tinha, o nada que os outros haviam consumido, e correu para sua campa. Como o dia findara não havia alma humana para lhe advertir, o frio já começava a ouriçar seus pelos, suas mãos mal conseguiam se manter de tão roxas. Pôde começar seu rito. Na praça, começou pedindo bênção ao pai, homem nu, gigante, importante, olhando sempre para o horizonte, sem saber o que lhe vinha no encalço e sem nunca olhar para trás. Sem saber como, o menino sabia que os olhos desse homem não eram como os dos outros que têm medo do inerente, não tinha o calor da alma mundana relegada ao inferno. Agradeceu a bênção do pai e foi ter com a mãe. Contemplou-a de longe por um segundo, sentiu o anseio candente que lhe comia por dentro. Ao passar ao lado de um canteiro de flores, sentiu pena por elas terem que aguentar caladas aquele mundo etéreo, colheu um punhado de beijinhos e finalmente usou-os para agradar mamãe. Um beijinho a enfeitar os ombros, um beijinho a enfeitar os pés rechonchos, outro para seu colo tornar-se mais que um jazigo. Por fim, pôs o colar no pescoço e os laços nos dedos da mulher.

Agachou-se para pedir a bênção e ao terminar a frase os pingos de chuva começaram a cair, a chuva que sempre lhe castigara o corpo não deixava de trazer alguma magia ao momento. Ouviu murmúrios de Moiras conspirantes prontas para dar fim ao tricô. A tosse afligia e a chuva provavelmente o daria por vencido. Apressado, deitou-se no colo da mulher, segurou a flor que sobrara com a boca, escondeu suas mãos entre as pernas e fechou os olhos para dormir. No ombro da estátua, uma pomba pousou tentando se esconder da chuva, sem êxito, desceu ao colo do garoto pegou a pequena flor com seu bico e voou dali para algum lugar da noite. A mãe, então, abraçou seu filho para que ambos se esquecessem da eternidade que ali passariam juntos. O suspiro de alívio veio com a notícia do destino imortal.

No outro dia, a surpresa era incomum, ninguém se recordava que o homem e a mulher nus tinham um filho.

Leonardo Meimes

Haicais

Posted in Uncategorized by leonardomeimes on 02/04/2010

Leonardo Meimes

AMOR POR UM FIO

Posted in Literatura by leonardomeimes on 13/11/2009

Germino acordou, ao espelho riu da velhice e, ao sentar-se na mesa do café, mais do que perfeitamente posta, riu da solidão. Comeu torradas que a experiência de anos transformou em deliciosas guloseimas. No meio do café um estranho estremecimento, levantou olhou para os lados, jogou um talher em cima do pires, correu à varanda com frenética certeza e dali contemplou o jardim. Sim, desde que voltara da guerra a vida se resumia a uma pensão de soldado, um casebre e um jardim invejável à beira do parque de nome Redenção.

Toda manhã, antes mesmo de tomar café, Germino em fervoroso ritual conversava com as plantas de seu jardim, contava histórias e as afagava. Ao passar por ali ele via tantas e tantas plantas, só não via a que com grande amor plantara antes de ir-se para os campos de combate. Passava ele as tardes em sua janela admirando, refletindo e gozando de suas memórias, ali ele não via mais sua roseira. Lindas que eram tais Rosas, das quais ele cuidara antes da guerra.

As crianças que vinham ao parque brincar o conheciam como o velho e sempre vinham à sua casa ouvir as histórias de guerra e de amor que Germino conhecia. A que ele mais gostava de contar era aquela, de uma Rosa, em que ela, cansada de esperar, sumiu pelo mundo em venturas. As crianças, encantadas com o absurdo de uma rosa sair ao mundo, riam e perguntavam ao velho como era tal rosa. …Uma beleza de raiz na terra, de dança ao vento e de louvor à lua! E como… Ainda a lembra pequena em broto, dando gostosas risadas de quem não tem com o quese preocupar, era incrível. Tinha a maior gana do mundo pela felicidade e mal tinha nascido. Germino conta sobre um passeio em que foram ao parque, ele já homem, ela ainda delicada vida, pincelada a ouro. Que surpresa quando a garota mais do que seriamente decidiu ali criar raízes. Decidiu que se não fosse ali, sua vida não seria sua. Germino argumentou, tens que viver onde foram plantadas suas raízes primeiras, aqui em meio ao mundo serás infértil. Ela, malcriada criatura, respondeu, …não há tal éden fingido, lá estava em meio a damas da noite que não fazem jus a quem eu sou. Pois, assim, se mudaram. Para essa mesma casa.

S_Jardim_dEssas e outras historias eram repetidas à exaustão por Germino, pois se não as contasse seu peito velho talvez não aguentasse a pressão. Além disso as crianças sempre queriam mais. Eis que Germino lembra de outra época em que tal bruaca, estava crescendo, risonha e sonhadora. Já saia sozinha, cuidava de si própria, não tinha medos, aflições, muito menos malícias. Em pouco tempo ela estava dando flor, avisando os homens que tinha cor. Germino havia de se encontrar com amigos, discutir e comentar a situação mundial. Ela disse que já estava em idade de aprender sobre o mundo e foi junto, ao encontro, Germino teve a impressão que algo estava muito estranho e que as atenções de sua louca criatura haviam mudado, de sua pessoa para alguém ou algo. Para complicar mais a situação Germino foi à guerra.

Viu-se ser levado para longe, não à força, mas com muita angústia. Pediu-lhe que ali ficasse e esperasse sua volta, cravasse as raízes da futura casa que construiriam, pois ao voltar da guerra pretendia ele estar melhor de vida. A verdade é que quando voltou só havia a terra. Germino em grande tristeza, cuidou de seu jardim, mexeu com a terra e envelheceu. O jardim contém várias espécies colhidas no parque e até agora conserva um local em aberto com um espaço, bem no meio do jardim. Ali, diz ele às crianças, será plantada de novo minha Rosa.

Num segundo dia ele acorda, o mesmo ritual, e após o café da manhã, mesa para dois, se senta à varanda. Como te acho? Se no jardim das rosas, que é teu nome, sua raiz não mais cresce. Se nas cores camélias de seu vestido coralino sente-se perfume de ouro. Suspira… Como te achar se nos catálogos não constas, espécime raro. E reflete.. será que a brisa que aqui é tão fria lhe fez mal, ou será que esta mesma brisa ainda lhe afaga, acaricia, as pétalas? O orvalho que aqui surge todas as manhãs ainda te alimenta? E o lago, no qual  quis cravar raízes, por que o deixou?

Num terceiro dia ainda, Germino se dirige diretamente para a varanda, não mexeu no jardim, não se olhou no espelho e nem tomou café. Em seu coração, viu o pequeno circulo de terra, ainda a esperar as raízes que um dia lhe plantarão. Te acho em algum vaso ocre? Em meio a matas de concreto e piche? Ao olhar para tal jardim, Germino tem mais do que apenas uma melancolia, que talvez venha em menor quantidade que os outros sentimentos. Germino, espera, pois Rosa torna fácil aguentar e entender o mundo e tudo. Quando se deita à noite, Germino curte sua solidão.

Leonardo Meimes

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O Alambique – Pra quem tem fôlego pra ler…

Posted in Literatura by leonardomeimes on 24/09/2009

2372009055Como se do chão viessem ondas que o desequilibrassem a cada toque, o Alambique tentava fazer seu caminho pelo beco. Suas pernas trançavam inúmeros tropeços, enquanto sentia o pequeno peso da carga nas costas o puxando para trás e em seguida o empurrando para frente. Assim ia ele, ziguezagueando, com um saco preto, dentro cobertor, jornais para esquentar o corpo enquanto dorme e uma garrafa de canha. Com seu andar de camaleão, chegou à frente de um bar, tentou parar de brusco quando encontrou uma poça de água e acabou caindo de lado no chão, por sorte em cima do grande saco preto. Ali, deitado como quem está sofrendo de algum ataque, sentiu os pingos da chuva voltarem a cair em seu rosto. Demorou a se levantar e quando conseguiu dirigiu-se para o bar, precisamente para o canto esquerdo, onde se colocou a baixo da mesa em que os músicos tocavam imprecisamente algum samba.

O bar era local de juventude, podia se dizer que os mais velhos eram os que cantavam e tocavam com a ajuda de duas moças mais novas. Nas mesas ali fora, o povo começou a adentrar devido à chuva, fazendo o minúsculo local ficar cheio em segundos. O Alambique estava ali, mesmo que ninguém o considerasse. Olhava para os rostos jovens, que impregnados de saúde desviavam de seu olhar, evitavam, fingiam que ali não havia ninguém. Porém é fato e qualquer um que pudesse estar lá na hora comigo veria que aquele homem sentado no chão, em cima de trapos e vestido com trapos, existia.

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A música não parou nenhum segundo, meninas desenvolveram uma dança atraente, rapazes olhavam descrentes, Alambique só procurava um olhar recíproco… Um garçom jovem como todos os outros, passou e deixou sobre uma mesa uma garrafa de cerveja. A espuma adentrou fundo nos desejos do Alambique. Barbudo e despenteado fez nomovimento lesmático dos bêbados um sinal com os dedos apontando para cima e riu, imaginando platéia que acompanhasse seu trunfo, retirou da grande bagagem sua garrafa transparente e plástica de pinga. Mostrou, ofereceu e até gracejou uma cheirada no gargalo à sua platéia antes de beber o gole alcoólico com gosto. Ficou por momentos curtindo a música, ouvindo a melodia, o som não era em nada bom, os músicos com instrumentos desafinados, pandeiros fora do ritmo, mulheres cantando fora do tempo, porém era ópera para os ouvidos do Alambique.

Parou a música e Alambique gritou “Madalena, Madalena”, um dos músicos ouviu e atendeu o pedido, “Você é meu bem querer!” e assim continuaram. Alambique entra em um frenesi, dançando somente com os braços, batendo palmas, repetindo o refrão incessantemente, ali mesmo sentado. Mesmo quando já era outra música que tocava ele continuava a insistir “Madalena, Madalena!”. Uma moça disse com ar reprovador para o Alambique “Não é mais Madalena homem, presta atenção!”. Ele em um crescente de euforia, olha nos olhos da moça recíprocos por um segundo, se levanta com dificuldade joga os braços para o alto e, como se pedisse que alguma Madalena se jogasse do céu em seu colo, grita a pulmões de pneumonia “Madalena, Madalena!”.

O garçom do bar finalmente o viu ali, se dirigiu a Alambique e pediu para que ele se retirasse. Um rapaz que estava próximo diz ao garçom que deixe de ser implicante, pois o homem estava ali a tanto tempo e não estava atrapalhando ninguém. “Se deixar um entrar, daqui a pouco só tem fulero nesse bar”, diz o garçom já apontando a rua para Alambique. O barbudo olhou para os lados e sentou-se, fingindo não ver o homem que tentava colocá-lo para fora do lugar, pensou: “So fulero que nem todo mundo aqui”. O dono do bar em seguida aparece e o manda pegar as coisas e sair rapidamente. Com a ajuda do rapaz que o defendeu Alambique levanta, pega as coisas, arranca das mãos do garçom sua garrafa de pinga, a qual lhe fora tomada, e sai porta a fora.

Lá já não chovia mais e como não podiam o mandar embora da rua, ficou parado em frente ao bar olhando e cantando seu verso preferido. Nas costas ainda está o saco com seus pertences. Próximo a ele uma mesa com vários jovens, incluindo o que o havia ajudado. Alambique se aproxima e tenta puxar assunto “Bom o samba?” e é respondido com um simples “Sai fora, se toca, já encheu o saco já”. É o que ele faz, vira de costas e começa de novo o seu navegar inconstante pelo beco, com tropeços e sustos.

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Não andou nem meia quadra e algo o surpreendeu. Formas lindas eram feitas no ar por malabaristas de rua que jogavam claves, bolas, outros se equilibravam em monociclos enquanto faziam truques com bolas de toque. Alambique se apaixona pelos movimentos, pelas claves que saiam das mãos de um para a do outro sem cessar. Deixou-se cair de novo em cima do grande saco, desta vez não era a chuva que o agraciava e sim a visão única de estar exatamente a baixo dos malabaristas. O circo, nunca por ele visitado, o rodeava agora e em seu sonho Alambique se imaginava um equilibrista, andando pelos paralelepípedos da cidade, contornando as esquinas esguias dos becos, passeando pelas marquises e pulando sobre toldos… Naquele lugar mesmo Alambique dormiu.

No outro dia já havia passado da hora do almoço e ele como criança mimada dormia e não obedecia aos passos apresados dos gentios que tentavam o acordar. Um colega seu de rua, bebedeira e tudo mais, passou e se atreveu a chamá-lo. “Alambique, Alambique, acorda que se tá no meio do beco, daqui apouco chamam a pulicia pra ti enxota daqui. Anda homem, que parece até que gosta de dormi no chão frio!” A voz de seu colega adentrou os sonhos de Alambique e o trouxe a realidade, acordou então. Desfez-se das remelas, arrumou o cabelo e enfim levantou.

—    Rico, se num sabe tudo que me aconteceu onti rapaiz! Se eu ti conta, se acredita?

—    Ave, que que foi?

—    Eu onti, fui pro samba, dancei com a mulherada bonita, cantei junto cos cantor, puxei “Madalena”, bebi cerveja geladinha e sabe o que me aconteceu ainda?

—    Que que foi?

—    Dei sorte e peguei um circo de passage, até na corda bamba eu andei! To tão cansado, que merecia mais uma hora de sono, sabia?!

Gato-Bebado

Leonardo Meimes