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Voltaire e o Romançe Policial (FIM)

Posted in Educação, Literatura by leonardomeimes on 14/08/2009

193200125076 O estereótipo de personagem inteligente, nobre e bonito seria seguido depois por outros escritores para desenvolver seus detetives – como o detetive C. Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe, considerado o primeiro detetive moderno da literatura e Sherlock Holmes, do escritor escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930) – que usam claramente o mesmo raciocínio lógico para solucionar crimes, não sendo às vezes necessária a investigação de rua. Se fizermos um breve quadro de comparação entre os três personagens veremos que essas características sociais, intelectuais e físicas são também compartilhadas.

Características

Zadig

C. Auguste Dupin

Sherlock Holmes

Intelectuais Filósofo, que em várias passagens mostra ter um conhecimento enorme. Inteligente e preciso nas deduções. Erudito, racional, muito observador, conhecedor de vários assuntos e exímio praticante da dedução.
Sociais Rico, freqüentador da parte nobre da sociedade e preferido de um rei em uma passagem. Nobre com o título de Chevalier, rico. Um gentleman, rico e nobre.
Físicas Jovem, bonito e de corpo atlético. Não se tem uma descrição exata de sua aparência. Alto, magro, pratica boxe e outros esportes.

No conto de Voltaire,  Zadig em vários episódios acaba sofrendo, assim como Cândido, duras punições e intervenções tanto da lei quanto dos governos, mostrando o quão a sociedade é perversa, ao contrário do que os otimistas pregavam. Ele é de alguma maneira hostilizado pela sociedade, que vê nos seus atributos uma ameaça. Esta característica de personagem marginalizado ou hostilizado está também presente nos romances policiais modernos com detetives menos aristocratas e mais populares que não são tão bem vistos pela sociedade – a exemplo o detetive-ladrão Arsène Lupin, uma espécie de “Robin Hood” do escritor francês Maurice Leblanc (1864-1941), que por vezes era confrontado com “Herlock Sholmes”, uma alusão clara ao personagem de Conan Doyle.

sherlock-holmes-thomas-watson A contribuição de Voltaire não se estende só à literatura policial. Como filósofo e pensador ele contribuiu para a cultura de modo geral e muito de sua literatura foi, em vários pontos, inovadora. Seus contos filosóficos, com uma linguagem de fácil acesso e com aventuras, personagens e idéias coerentes à sua teoria iluminista, formam uma grande obra. Outro tipo de literatura da qual Voltaire acabou se tornando um pioneiro, junto com As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift (1726), foi da Ficção Científica com as viagens espaciais e culturas alienígenas de Micrômegas (1752), conto no qual um habitante da estrela Síria visita o planeta Saturno e trava conversas filosóficas. A partir de todos os aspectos analisados, pode-se concluir que o iluminista Voltaire foi de grande importância para o desenvolvimento da literatura de entretenimento moderna, que hoje é muito importante para a formação dos leitores, particularmente dos leitores infanto-juvenis.

Leonardo Meimes

REFERÊNCIAS

CAILLOIS, Roger. Le Roman policier. Buenos Aires: Editions des Lettres Françaises, 1941.

SODRÉ, Muniz M. A. Best-Seller – A Literatura de Mercado. São Paulo: Ática, 1985.

VOLTAIRE. Zadig ou Destino. Martins fontes: 2001.

Voltaire e a Literatura Policial p.4

Posted in Educação, Literatura by leonardomeimes on 10/08/2009

O raciocínio de ligação entre as marcas deixadas pelos animais e a imagem provável dos animais que Zadig cria é uma forma de raciocínio dedutivo onde se percebe o que Sodré (1985:29) define como “atividade cerebral privilegiada”, decorrente do raciocínio e das informações. A partir das marcas das ferraduras a distâncias iguais, Zadig descobriu que se tratava de um cavalo, animal que usa ferradura, o que já traz uma solução para a poeira que havia sido varrida dos troncos: o rabo do cavalo. Encaixando as marcas deixadas ele constrói uma conclusão do físico dos animais e descreve também os materiais de montaria. Em outro trecho do conto, no capítulo chamado Os Enigmas, Zadig responde a enigmas criados por um mago como parte do torneio para ser o rei da Babilônia, aparentemente o raciocínio usado segue também uma lógica e Zadig, ajudado por sua inteligência, responde a todos os enigmas com respostas eloqüentes, a exemplo:

 

misterio1“— Qual é, de todas as coisas do mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a mais negligenciada e a mais irreparavelmente lamentada, que devora tudo o que é pequeno e que vivifica tudo o que é grande?”

“…Zadig disse que era o tempo. ‘Nada é mais longo — acrescentou ele, — pois que é1200832225631_bigPhoto_0 amedida da eternidade; nada é mais curto, pois que falta a todos os nossos projetos; nada mais lento para quem espera; nada mais rápido para quem desfruta a vida; estende-se, em grandeza, até o infinito; divide-se, até o infinito, em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos lhe lamentam a perda; nada se faz sem ele, faz esquecer tudo o que é indigno da posteridade, e imortaliza as grandes coisas’. A assembléia deu razão a Zadig.” (Cap. 19 – Os Enigmas)

pinkpanter Mais uma vez Zadig usa as informações colhidas, desta vez de seu interlocutor, para juntar as “peças” e resolver o quebra-cabeças. Sua resposta, como muitas respostas a casos de detetives liga passo a passo as informações com a solução sugerida, evitando que a solução pareça injustificada ou incoerente. Este é um dos motivos pelo qual o leitor acaba se prendendo mais a história policial, a solução do caso, enigma ou “charada” está sempre nos elementos do texto, tendo o leitor uma oportunidade de ir ligando os fatos no correr da história e após isso confirmar suas suspeitas com a solução dada pelo detetive.

Esses trechos do conto Zadig claramente mostram o primeiro personagem da ficção a desenvolver estas características do romance policial, mais precisamente do detetive. Porém outras características do personagem de Voltaire podem ser vistas também nos detetives do romance policial.

 

E isso será visto na 5º parte, em que citaremos Sherlock Holmes e outros.

 

Fotos interessantes

Fonte: http://tecnologia.terra.com.br/galerias/0,,OI105938-EI4795-FI1290246,00.html

Golfinho + Banana

 

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Sapo + Laranja

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Leonardo Meimes

Voltaire e a Literatura Policial (p.3)

Posted in Educação, Literatura by leonardomeimes on 03/08/2009

Perante a corte, Zadig dá uma demonstração do raciocínio dedutivo e lógico que tinha desenvolvido para descobrir como eram os animais:

Beagle “…Já que me é dado falar perante essa augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que jamais vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis. Eis o que me aconteceu. Passeava eu pelas cercanias do bosque onde vim a encontrar o venerável eunuco e o ilustríssimo monteiro-mor, quando vi na areia as pegadas de um animal. Descobri facilmente que eram as de um pequeno cão.  Sulcos leves e longos, impressos nos montículos de areia, por entre os traços das patas, revelaram-me que se tratava de uma cadela cujas tetas estavam pendentes, e que portanto não fazia muito que dera cria. Outras marcas em sentido diferente, que sempre se mostravam no solo ao lado das patas dianteiras, denotavam que o animal tinha orelhas muito compridas; e, como notei que o chão era sempre menos amolgado por uma das patas do que pelas três outras, compreendi que a cadela de nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me ouso exprimir. Quanto ao cavalo do rei dos reis, seja-vos cientificado que, passeando eu pelos caminhos do referido bosque, divisei marcas de ferraduras que se achavam todas a igual distância.

“Eis aqui — considerei — um cavalo que tem um galope perfeito”. A poeira dos cavalo_negro-7393troncos, num estreito caminho de sete pés de largura, fora levemente removida à esquerda e à direita, a três pés e meio do centro da estrada. “Esse cavalo — disse eu comigo — tem uma cauda de três pés e meio, a qual, movendo-se para um lado e outro, varreu assim a poeira dos troncos”. Vi debaixo das árvores, que formavam um dossel de cinco pés de altura, algumas folhas recém-tombadas e concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça e que tinha, portanto, cinco pés de altura. Quanto ao freio, deve ser de ouro de vinte e três quilates: pois ele lhe esfregou a parte externa contra certa pedra que eu identifiquei como uma pedra de toque. E, enfim, pelas marcas que as ferraduras deixaram em pedras de outra espécie, descobri eu que era prata de onze denários’.” (Cap. 3 – O Cão e o Cavalo)

Essa foi a brilhante descrição de Zadig… em breve veremos como isso deu surgimento ao estereótipo do detetive policial…

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Aqui fica uma imagem interessante =D

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GATINHOS PUNKROKERS

Voltaire e a Literatura Policial (parte 2)

Posted in Educação, História, Literatura, Uncategorized by leonardomeimes on 31/07/2009

Voltaire e a Literatura Policial 2

Edipo-Rei

Edipo-Rei e a Esfinge

O personagem Édipo-Rei de Sófocles é por muitos autores considerado como um ancestral dos detetives, pelo trabalho de investigação que ele faz sobre sua própria origem. Porém Roger Caillois (1941) afirma, em relação a tragédia de Sófocles, que “não há nada de intelectual em Édipo” e de fato a tragédia por sua natureza busca a catarse pela comoção e não pela demonstração ou surpresa, como no caso do romance policial. Distanciando os laços genealógicos entre o detetive policial e Édipo, outro personagem surge como um potencial precursor do pensamento lógico-analítico:  Zadig, do autor francês Voltaire (1694-1778).

Voltaire

Voltaire

Deve-se levar em consideração que o personagem em questão não foi criado com o intuito de ser um detetive, mas como uma crítica de Voltaire à sociedade de sua época, em que havia uma tensão entre as instituições conservadoras, Igreja Católica e Governo Burguês, e os pensadores. Voltaire foi um filósofo e teórico iluminista do século XVIII, que tinha grande fé na lei como organizadora dos estados e sonhava com uma reforma da sociedade causada pela filosofia, ciência e pela razão. Participou da elaboração da Enciclopédia (1772), na qual reuniu vários conhecimentos científicos em 35 volumes, juntamente com outros pensadores iluministas como Denis encyclopedieDiderot, Montesquieu e Rousseau. Pregava as liberdades civis, a liberdade de expressão e o direito de um julgamento justo, ironizava a riqueza e a burguesia, idéias essas que aparecem em seus escritos e estão presentes em Zadig ou Destino (1747) e notavelmente em sua novela Cândido ou Otimismo, a última sendo uma dura crítica ao pensamento otimista de Pope, Godwin e Leibniz.

Zadig, personagem principal da narrativa, é um filósofo babilônico otimista, com muitas riquezas, beleza e, às vezes, muito solitário, que passa por situações que retratam o pensamento irônico de Voltaire em relação à sociedade. No conto, Zadig, depois de se frustrar com sua relação rápida com Sémire, se refugia no rio Eufrates e passa a estudar a natureza, os animais e as plantas, adquirindo uma grande agudeza na percepção do ambiente. Um dia, então, ele é defrontado com uma situação em que seus conhecimentos podem ser usados. Zadig usa o raciocínio dedutivo, lógico e pistas deixadas no ambiente para descrever o cavalo do rei e o cão da rainha, que haviam fugido, e os quais ele não tinha avistado. Ao ouvir uma detalhada caracterização dos animais, os empregados do rei e da rainha decidem prender Zadig, não acreditando que o rapaz pudesse descrever os animais sem tê-los visto.

Aqui acaba a segunda parte, vocês acompanharão na próxima a defesa de Zadig perante a corte da Rainha, e sua resposta que o colocam como o primeiro detetive da literatura…

Esperem e verão como é impressionante =D

Leonardo Meimes

Voltaire e a Literatura Policial (Parte 1)

Posted in Educação, Literatura, Uncategorized by leonardomeimes on 28/07/2009

Pessoal, vou começar a postar uma série de partes do que foi um artigo apresentado por mim em um Fórum de Letras há alguns anos.  O artigo relaciona a literatura polícial com a influência dos contos filosóficos de Voltaire, particularmente o conto Zadig ou destino. Assim creio que tanto os que se interessam pela Literatura quanto os que gostam de Filosofia se sentirão avontade.

A primeira parte já está aqui:

VOLTAIRE E A LITERATURA POLICIAL


 

Sherlock Homes

Sherlock Holmes

Em se tratando de Romance Policial o personagem mais importante da narração é sem dúvida o detetive, que é colocado frente a uma situação crime e tem que resolvê-la. No entanto, conforme o modelo predominante nesta literatura, a ação deste personagem é dedutiva e investigativa, caracterizando-se como uma ação policial extremamente intelectual. A dedução usada é uma descendente direta dos silogismos da lógica clássica de Aristóteles, é uma conclusão baseada em informações anteriores que tem uma relação entre si, portanto parte de uma informação universal para uma conclusão particular:

 

“Todo homem é mortal.

Sócrates é homem.

Logo,  Sócrates é mortal.”

Pela relação entre os sujeitos das premissas se faz a conclusão lógica de que Sócrates é mortal. O mesmo raciocínio de ligação entre os fatos é produzido pelos detetives dos romances policiais que, como cita Muniz Sodré (1985:29), fazem “a atividade de preenchimento do vazio entre um acontecimento (o crime) e sua causa”. Um exemplo deste trabalho de solução de enigmas pode ser visto nos contos policiais de Edgar Allan Poe (1809-1849), importante autor estadunidense que foi um dos principais autores da literatura policial e criou regras definitivas para esta literatura.

Aristóteles  (384 a.C. - 322 a.C.)

Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.)

No conto A Carta Roubada, o detetive C. Auguste Dupin, criado por Allan Poe, parte da análise dos elementos que o chefe de polícia lhe conta para deduzir que a carta estava em um lugar à vista de todos, pois assim não levantaria suspeitas e acaba por recuperar o documento. A análise também é um elemento importante da ficção policial, pois as informações muitas vezes não são apresentadas claramente, sendo necessária uma observação cuidadosa de pistas e locais onde os crimes ocorreram. A partir dessas pistas o detetive constrói um raciocínio lógico dedutivo, ligando as pistas entre si e gerando possíveis soluções. Em outras histórias do mesmo autor, o personagem Dupin resolve outras situações crime sempre seguindo pistas e raciocínios, porém antes que Edgar Allan Poe criasse suas histórias policiais, já existiam personagens na literatura que tinham características que depois se tornaram parte do estereótipo de detetive.

Fim da Parte 1 – Em dois dias posto mais uma =D

Leonardo Meimes