Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

Virada cultural, uma virada curitibana

Posted in Música by leonardomeimes on 08/11/2010

Curitiba é uma cidade em que o centro dorme cedo… até mesmo em finais de semana e feriados. Moro há alguns anos no centro de Curitiba e percebo que atualmente é difícil encontrar um lugar cheio após a meia noite. No largo da ordem as sextas e sábados estão acabando cedo também, a meia noite já há lugares com muitas mesas vazias.

Porque será que o Curitibano não sai? ou se sai vai aos bairros ou shoppings?

Será porque a cena artística e musical da cidade está enfraquecida?

Acho que sim. A prova foi a virada cultural, nela até as 3 ou 4 horas da manhã havia uma multidão no largo da ordem, nas ruas do centro muitas pessoas caminhavam e transitavam, esse tipo de movimento que é preciso ter nos outros dias, isso previne a criminalidade, pois ruas movimentadas são mais seguras, e ajuda a movimentar o mundo cultural curitibano.

Para isso acontecer a TV e as rádios tem que começar a prestigiar a nossa arte e música, temos shows e bares com músicos de muita qualidade, apenas não temos o público que lhes prestigie. Os bares do centro deveriam ter música, apenas dois ou três tem música! Festivais não são caros de fazer, é só divulgar pela internet e aproveitar os espaços das praças, como a praça da espanha, os palcos de universidades e pátios, como a concha acústica da PUC e o pátio da reitoria! há também os DCEs das universidades, é só imaginar e convidar algumas bandas =)

Essa virada foi boa  para mostrar que público existe, apenas não existem programas interessantes. Vamos ver se ela incita as pessoas que participaram a vir mais para o centro movimentar nossa noite.

 

Leonardo Meimes

Tagged with: ,

AMA DE LEITE

Posted in Literatura, Uncategorized by leonardomeimes on 08/07/2010
Mulher nua

Mulher nua

Um garoto fuçava o lixo, farejando qualquer resto que lhe pudesse forrar o bucho, ainda não colhera nada desde que se levantou o sol, o único a lhe esquentar o estômago e as enxaquecas até aquele momento. Se lhe faltava o sol a situação agravava, sentia calafrios em pensar nas noites chuvosas da capital dos pinheirais, roupas grudentas umedecidas, a geada que enevava a grama. Tossia. Não havia cura para o mal que lhe espreitava, para a morte esgueira, para o sofrimento desumanizador e inevitável. Destino que lhe perturbava. Tão grande era seu medo do frio! Porém, maior o da morte…

Caminhava sonâmbulo sem atinar para o destino, sabia do inevitável, cuidava de alimentar a fome para não morrer de angústia, sofria o que tinha de sofrer para não se lembrar da sorte. As pernas arrastavam-se sem fôlego, queriam logo ficar estáticas, mudas, e trançavam-se num movimento epiléptico quando as cãibras o lembravam de que ainda vivia. O garoto se refrescava a sombra das árvores, nos toldos das lojas e à noite para dormir se escondia em baixo das estátuas. Os olhos exalavam o frio; frio que denunciava a alma; sabia que de alma o corpo havia se despido há muito tempo, afinal sem nome, sem família e prostituído à vida, sobrava o quê? Havia resistente a tosse…

Homem nu

Homem nu

Isso, dele já era certo, adiaria o quanto pudesse. Corria mais uma vez os olhos pelas sacolas de uma lanchonete, competindo com pombos; sorvia água da poça, da fonte em que cavalos gorfavam e se limpava mergulhando no chafariz da Santos Andrade. Espalhava-se sobre a cidade como um espectador coadjuvante, não se dirigia a ninguém e os outros fingiam que ele não vivia. Uma não-convivência pacífica. Apesar disso, tinha bisbilhotice pelas pessoas, e que forma mais fácil de conhecer alguém do que chafurdando seu lixo! Guardava uma infinidade de objetos: pentes, muitos laços, flores de plástico, mimos, um colar com pérolas de plástico! Acreditava presentear uma futura companheira com a joia. Ao sair desse mundo, caía em meio à geleiras humanas, à uma tosse magra, a um fado triste. Tinha horror a guardas, viviam lhe cutucando enquanto dormia, caçavam-lhe após os banhos de chafariz e o olhavam sempre com desdém.

Homem nu

Homem nu

Naquele dia o rapaz tinha intento, tinha um anseio, um destino… Queria longe dele a dama gótica que lhe caçoava a cada tropeço. Ao anoitecer juntou tudo que tinha, o nada que os outros haviam consumido, e correu para sua campa. Como o dia findara não havia alma humana para lhe advertir, o frio já começava a ouriçar seus pelos, suas mãos mal conseguiam se manter de tão roxas. Pôde começar seu rito. Na praça, começou pedindo bênção ao pai, homem nu, gigante, importante, olhando sempre para o horizonte, sem saber o que lhe vinha no encalço e sem nunca olhar para trás. Sem saber como, o menino sabia que os olhos desse homem não eram como os dos outros que têm medo do inerente, não tinha o calor da alma mundana relegada ao inferno. Agradeceu a bênção do pai e foi ter com a mãe. Contemplou-a de longe por um segundo, sentiu o anseio candente que lhe comia por dentro. Ao passar ao lado de um canteiro de flores, sentiu pena por elas terem que aguentar caladas aquele mundo etéreo, colheu um punhado de beijinhos e finalmente usou-os para agradar mamãe. Um beijinho a enfeitar os ombros, um beijinho a enfeitar os pés rechonchos, outro para seu colo tornar-se mais que um jazigo. Por fim, pôs o colar no pescoço e os laços nos dedos da mulher.

Agachou-se para pedir a bênção e ao terminar a frase os pingos de chuva começaram a cair, a chuva que sempre lhe castigara o corpo não deixava de trazer alguma magia ao momento. Ouviu murmúrios de Moiras conspirantes prontas para dar fim ao tricô. A tosse afligia e a chuva provavelmente o daria por vencido. Apressado, deitou-se no colo da mulher, segurou a flor que sobrara com a boca, escondeu suas mãos entre as pernas e fechou os olhos para dormir. No ombro da estátua, uma pomba pousou tentando se esconder da chuva, sem êxito, desceu ao colo do garoto pegou a pequena flor com seu bico e voou dali para algum lugar da noite. A mãe, então, abraçou seu filho para que ambos se esquecessem da eternidade que ali passariam juntos. O suspiro de alívio veio com a notícia do destino imortal.

No outro dia, a surpresa era incomum, ninguém se recordava que o homem e a mulher nus tinham um filho.

Leonardo Meimes

Em Busca da Curitiba Perdida

Posted in Literatura by leonardomeimes on 02/07/2010

Dalton Trevisan

Dalton por Poty

Dalton por Poty

Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça – galiii-nha-óóó-vos – não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a estátua do Tiradentes.

Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal; do Jegue, que é o maior pidão e nada não ganha (a mãe aflita suplica pelo jornal: Não dê dinheiro ao Gigi); com as filas de ônibus, às seis da tarde, ao crepúsculo você e eu somos dois rufiões de François Villon. Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a dos bailes no 14, que é a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 De Janeiro; das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic; dos Chás de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios são as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja. Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões – com seu rei Candinho – e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo. Não a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitágoras, desde o Sócrates II até os Sócrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estação, último trenzinho da Revolução de 30, Curitiba que me viaja.

O Vampiro de Curitiba
O Vampiro de Curitiba

Dos bailes familiares de várzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se você dança aconchegado; do pavilhão Carlos Gomes onde será HOJE! só HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos – A Ré Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de pó que nem os vira-latas da lua.

Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braços do grande Ney Traple e das pensões familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma pensão é maior que a República de Platão, eu viajo.

Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iapó, do maestro Mossurunga, eu viajo.

Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio na Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber água.

Viajo Curitiba das conferências positivistas, eles são onze em Curitiba há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.

Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo.

Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar – esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.


O “Vampiro” fala de sua cidade. Texto extraído do livro “
Mistérios de Curitiba“, Editora Record, Rio de Janeiro, 1979, pág. 84.

Tudo sobre o autor em nossa páginaBiografias“.