Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

Humberto Eco – Seis Passeios pelos Bosques da Ficção

Posted in Literatura by leonardomeimes on 09/03/2012

Uma citação interessante em que Eco percebe que na nossa vida a questão religiosa traz uma profunda amostra de como o humano está “perdido” e “sem regras para compreender o mundo” e recorre ao que na literatura chamamos de autor-modelo, aquele que lhe guia a uma determinada leitura da história, criando uma ficção de Deus para que nossa vida tenha um motivo, um começo e um fim: um autor-modelo.

Vivemos no grande labirinto do mundo real, que é maior e mais complexo do que o mundo de Chapeuzinho Vermelho. É um mundo cuja estrutura total não conseguimos descrever. Na esperança de que existam regras do jogo, ao longo dos séculos a humanidade vem se perguntando se esse labirinto tem um autor ou talvez mais de um. E vem pensando em Deus ou nos deuses como autores empíricos, narradores ou autores-modelo. As pessoas tentam imaginas uma divindade empírica: se tem barba; se é Ele, Ela ou Isso; se nasceu ou sempre existiu; e até (em nossa própria época) se morreu. Sempre se procurou Deus como Narrador – nos intestinos dos animais, no voo dos pássaros, na sarça ardente, na primeira frase dos Dez Mandamentos. Alguns, todavia (inclusive filósofos, é claro, mas também adeptos de muitas religiões), procuram Deus como Autor-Modelo – que dizer, Deus como a Regra do Jogo, como a Lei que torna ou um dia tornará compreensível o labirinto do mundo. A divindade nesse caso é algo que precisamos descobrir ao mesmo tempo que descobrimos por que estamos no labirinto e qual é o caminho que nos cabe percorrer.

No entanto há outro motivo pelo qual nos sentimos metafísicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os criptoanalistas confiam – a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que há uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás dele como criador e dentro dele como um conjunto de instruções de leitura.

Assim, nossa busca do autor-modelo é um Ersatz para aquela outra procura, no curso da qual a Imagem do Pai se esvaece na Névoa do Infinito, e nunca deixamos de nos perguntar por que existe alguma coisa em vez de nada.

O que não significa que sem Deus não há paz.

Tagged with: , , ,

Arthur C. Clarke

Posted in Filosofia by leonardomeimes on 17/02/2012

“A maior tragédia de toda história da humanidade deve ser o sequestro da moralidade pela Religião”

King Crimson – Pictures Of A City

Posted in Música by leonardomeimes on 15/02/2012

Pictures Of A City

King Crimson

Concrete cold face cased in steel
Stark sharp glass-eyed crack and peel
Bright light scream beam brake and squeal
Red white green white neon wheel.

Dream flesh love chase perfumed skin
Greased hand teeth hide tinseled sin
Spice ice dance chance sickly grin
Pasteboard time slot sweat and spin.

Blind stick blind drunk cannot see
Mouth dry tongue tied cannot speak
Concrete dream flesh broken shell
Lost soul lost trace lost in hell.

A polícia de Curitiba também é criminosa

Posted in Política, Textos Próprios by leonardomeimes on 06/02/2012

A polícia do PSDB é igual em todo país…

Ontem, eu estive no pré-carnaval de Curitiba como muitas pessoas de bem que participam todo domingo daquela festa. Como todo evento que cresce, há a necessidade de policiamento: para isso existe na Polícia Militar as unidades de Eventos. Só que o pré-carnaval, como todo carnaval deveria ter um policiamento mais presente do que a nossa PM e Guarda Municipal deu.

Nesse fim de semana, e no anterior, a quantidade de gente atingiu proporções que não são comuns em Curitiba. Estima-se que ontem pelas 21 horas ainda havia mais de 1000 pessoas no Largo da Ordem se aglomerando em frente ao Brasileirinho onde tradicionalmente, todo domingo, uma roda de samba é formada. A pergunta é:

  • sendo um carnaval, porque não havia policiamento durante todo o evento para evitar que marginais aparecessem?

O único esforço das autoridades para facilitar o evento foi o bloqueio de algumas ruas, de resto parece que a polícia estava apenas esperando um motivo para acabar com aquele evento.

Pois que o motivo veio quando algum desses marginais que poderia estar preso, não deve estar, resolveu agredir uma viatura da polícia que passava. A reação?

Duas viaturas da RONE e diversas viaturas dos Guardinhas desceram o Largo da Ordem mandando para casa mais de 1000 pessoas, das quais 99% estava dançando, se divertindo, entre as quais havia um cadeirante, idosos, uma mulher grávida… 

No local antes da Rone aparecer, não havia uma briga se quer! Só havia felicidade. Nas fotos já se vê o Largo esvaziado…

Foto: Albari Rosa

Parece a receita para uma ação desastrada não é? Pois eles ainda apimentaram ainda mais o clima. Entre os equipamentos de trabalho que foram usados pela polícia para dispersar o povo, que não tinha nada a ver com a garrafa jogada, estava:

  • caceteies, que foram usados com toda a sua desenvoltura;
  • escudos;
  • escopetas de bala de borrada que atingiram pelo menos 10 pessoas, incluindo um músico do bloco e um rapaz que estava com a mão levantada e tentou conversar com a polícia (esse na cabeça);
  • bombas e gás que eram jogadas na multidão para dispersar, o que causou uma correria de muitas pessoas que poderia ter terminado em tragédia.

Isso é tudo? Não.

Foto: Julio Garrido.

Não conversaram com repórteres, não deixaram ninguém ficar no Largo da Ordem, local público! Queriam ainda voltar pelo largo quando um grupo de pessoas se pôs em frente deles e conseguiu impedir.

Júlio Garrido (disponibilizou as fotos) comenta em seu facebook que:

Passada a batalha perguntei a um soldado do batalhão de choque a causa disso, ele disse : “Alguém atirou uma garrafa na viatura lá no cavalo babão” e eu perguntei mas e por causa disso vocês atiram em todo mundo? “A gente não sabe quem é bandido ou não é”, foi o que ele respondeu.
Essa é a lógica da PM? Se não sabe quem é bandido logo todos são?
Sinceramente não preciso deste tipo de polícia, melhor viver entre bandidos.

Essa história já é velha conhecida não? Alguém  se lembra da manifestação pela legalização da maconha que foi duramente rechaçada em SP? Dos estudantes que apanharam da PM na USP? Dos viciados que são espalhados pelo entro de São Paulo em vez de receberem assistência social, ou de prenderem apenas os traficantes? Das 2000 pessoas qeu foram evacuadas de Pinheirinho?

É… provavelmente você ainda se lembra de mais situações me que a polícia agiu de forma completamente desproporcional, causando mais violência do que os “marginais”.

Será que nosso estado e nossa cidade que são conhecidas por outros motivos também serão conhecidas pela atuação de uma polícia desumana, agressiva e autoritária?

Foto: Jaime Costa (Gazeta do Povo).

Cabe a vocês eleitores saberem quem está por trás disso, pois se eu sou defendido por essa polícia que é mais violenta com a população do que os marginais, eu preferia ficar à mercê.

O que é que o Luciano Ducci vai dizer? e o Beto Richa? Ou vão dizer que a ação da PM foi exemplar?

Logo colocarei um vídeo da confusão, com vista de cima, pois eu estava, por sorte, no primeiro andar do prédio do Brasileirinho, alguém gravou tudo de camarote.

Leonardo Meimes

A Cisjordânia e a “política da invisibilidade”

Posted in Política by leonardomeimes on 05/02/2012

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1043906-a-cisjordania-e-a-politica-da-invisibilidade.shtml

 

05/02/2012 – 07h40

A Cisjordânia e a “política da invisibilidade”

 

VLADIMIR SAFATLE
COLUNISTA DA FOLHA

“Vocês não podem ir à Cisjordânia”, disse o funcionário da locadora de automóveis no Aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv.

De fato, o GPS do carro nem sequer indicava cidades palestinas como Ramallah, Hebron ou Nablus, a poucas dezenas de quilômetros dali. Não estava claro se a impossibilidade teria ligação com alguma proibição do governo de Israel ou com uma estranha forma de acordo tácito entre os israelenses que consistiria em agir como se a Palestina não existisse.

Veja fotos da viagem de Vladimir Safatle a países árabes

Por fim, entrar na Cisjordânia não se mostrou mais complicado do que passar uma fronteira em qualquer lugar do mundo –o que demonstrou que a impossibilidade enunciada pelo funcionário da locadora era mais uma limitação psicológica do que a descrição de um estado efetivo de coisas.

É fácil se deixar inebriar pela beleza arquitetônica de cidades como Tel Aviv, com seus prédios em estilo Bauhaus ao redor do bulevar Rothschild, e Jerusalém, com seu trânsito racional e sua escala humana de prédios de baixo gabarito. Essas cidades testemunham a força e a impressionante dedicação de um povo capaz de construir um país em menos de 50 anos. poucos povos no mundo seriam capazes de fazer o que os israelense fizeram.

No entanto, tal admiração pode nos cegar para o que acontece do outro lado do muro que Israel ergueu, a partir de 2002, para isolar os palestinos.

Ela pode nos levar a pensar da mesma forma que o governo de Israel, que construiu na Cisjordânia essas autoestradas cujas placas indicam apenas os nomes dos assentamentos israelenses –forma de mostrar que as cidades palestinas não teriam sequer o direito de ser nomeadas.

POVO INVENTADO
Em dezembro do ano passado, o pré-candidato republicano à presidência dos EUA Newt Gingrich afirmou que os palestinos são um povo “inventado”. O que, no seu jargão, deve significar: um povo que não existe como tal e que, principalmente, não tem direito a existir.

Ele decerto acredita que há povos “inventados” e povos, digamos, “naturais”. Na sua vasta visão de americano médio, Gingrich talvez acredite em povos que tenham sido criados por alguma forma de vontade divina, perfeitamente clara para determinados deputados visionários do Partido Republicano.

A afirmação do candidato tem, ao menos, a vantagem da honestidade. Um povo como o palestino, cuja maioria da população não tem direito nem a carteira de identidade ou passaporte, deve entender bem o que Gingrich quis dizer. Ele sabe que a afirmação do republicano expõe o núcleo de uma prática que paulatinamente tomou conta da “questão palestina”.

Ela consiste em operar o que poderíamos chamar de “política de invisibilidade”. Pois uma das grandes conquistas da filosofia social dos últimos 30 anos foi pôr em relevo a importância da noção de reconhecimento no interior dos embates políticos.

Tal noção nos obriga a lembrar que, para além das questões econômicas de redistribuição de riquezas, a política é a esfera na qual demandas de reconhecimento devem ser ouvidas e implementadas.

Reconhecer alguém como sujeito político significa primeiro reconhecer que seus sofrimentos e direitos são visíveis. Em nenhum outro lugar essa teoria foi tão esquecida quanto na Palestina.

Durante minha viagem à Tunísia, ao Egito e a outros países da região, ficou claro como o significante que melhor organizava as demandas políticas daqueles que colocaram em marcha a Primavera Árabe era “dignidade”. Na Palestina, descobre-se mais facilmente como tal palavra foi enunciada não apenas contra ditadores corruptos como o tunisiano Ben Ali ou o egípcio Hosni Mubarak.

Ela foi enunciada contra o Ocidente. Pois, se os povos árabes são tão sensíveis ao problema palestino (contrariamente à clássica insensibilidade de seus governantes), é porque veem nele o sintoma do discurso do Ocidente sobre o Oriente Médio. Ou seja, o ponto que revela o destino que o Ocidente reserva aos povos árabes, quando estes não têm petróleo, ou posição geopolítica privilegiada. O destino da invisibilidade.

AMEAÇA
Há uma forma clássica de tentar cortar tal discussão pela raiz. Ela consiste em justificar a situação palestina, de humilhação cotidiana, afirmando que os israelenses também sofreram a ameaça cotidiana da guerra, da insegurança e do terrorismo.

É verdade que tal sofrimento é real e não deve ser esquecido. Não precisamos de discursos que diminuam o sofrimento vivenciado por um povo. No entanto, nada nos impede de, ao mesmo tempo, recusar radicalmente tanto o discurso que nega o direito à existência de Israel em fronteiras seguras (assim como as ações terroristas contra a população civil) quanto a prática que nega aos palestinos um Estado autônomo e respeitoso das fronteiras de 1967, ou que os submete a ações inaceitáveis de “punição coletiva”.

Mais ainda. Nada nos leva a afirmar que a insegurança israelense será resolvida pela condução do povo palestino à situação de inexistência.

“Isso é algo que, no fundo, os israelenses sabem”, disse-me Liran Razinsky, ativista do Movimento Solidariedade e professor de literatura da Universidade de Tel Aviv.

“Se você perguntar se os israelenses estão seguros de que seu Estado existirá daqui a 50 anos, a maioria responderá de maneira negativa. Mas, quando o afeto central da vida social é o medo, você se dispõe a fazer o que for necessário para se defender, sem nem sequer enxergar o que de fato você está fazendo. Assim, Israel se tornou um Estado democrático para os judeus, semidemocrático para os árabes-israelenses e totalitário para os palestinos”.

Um exemplo forte do que Razinsky tem em mente pode ser encontrado na cidade palestina de Hebron. Lá, em 1994, o colono Baruch Goldstein abriu fogo contra palestinos que rezavam na mesquita de Abraão, matando 29 pessoas.

Hoje, a mesquita e a área em volta estão totalmente cercadas por controles do Exército israelense, e o túmulo de Goldstein transformou-se em local de peregrinação de colonos radicais.
Os palestinos que moram na redondeza só podem entrar em casa depois de passar por tais controles. Não são autorizados a ter facas ou qualquer outro objeto cortante em casa, nem podem sair depois das 20h. Caso queiram, por exemplo, trazer um sofá para casa, precisarão de uma autorização do Exército que pode demorar semanas.

Qualquer palestino precisa da autorização do Exército israelense para reformar ou ampliar sua casa, assim como para construir reservatórios de água. Raramente tais permissões são concedidas. Ou seja, a todo momento, os palestinos são lembrados de que vivem em situação perpétua de exceção.

No entanto, é possível encontrar colonos indo ao supermercado ostensivamente com metralhadoras nas costas. Há um assentamento bem no meio da cidade. Ele é protegido por torres de observação do Exército que se espalham por Hebron, dando a impressão de uma cidade sitiada, controlada por alguma forma de pan-óptico que tudo vê. Até mesmo a entrada da cidade é controlada por uma barreira que a qualquer momento pode ser fechada para impedir que os palestinos passem.

Ruas estão divididas por blocos de concreto. Os palestinos circulam de um lado, os israelenses de outro. O lado israelense é duas vezes maior do que o palestino. Várias áreas da cidade foram interditadas aos palestinos para proteger os colonos. Não foi por outra razão que Andrew Feinstein, antigo parlamentar judeu do Congresso sul-africano, afirmou sobre a Cisjordânia: “Isto é como o apartheid”.

Feinstein estava certo: dificilmente encontraremos palavra mais adequada para caracterizar essas e outras situações corriqueiras na Cisjordânia, como as autoestradas que separam carros palestinos e israelenses.

ASSENTAMENTOS
Segundo as leis internacionais, os assentamentos são ocupações absolutamente ilegais. No entanto, “o governo de Israel nunca abandonou sua política de assentamentos, nem mesmo em época de negociação de paz”, disse-me Jamal Juma, ativista palestino e coordenador da ONG Stop the Wall.

“Não é por outra razão que hoje a Cisjordânia tem algo em torno de 520 mil colonos judeus ante uma população de 2,5 milhões de palestinos. Quando os acordos de Oslo começaram, a partir de 1993, esse número não chegava a um quinto do que é hoje. O maior erro dos acordos de Oslo foi não prever o desmantelamento imediato dos assentamentos.”

Autoridades israelenses afirmam que a existência dos assentamentos não é obstáculo para a paz. Afinal, Israel desmantelou assentamentos em Gaza, no governo de Ariel Sharon (2001-06), e no Sinai, no governo de Menachem Begin (1977-83), ao devolver tais terras. Mas é difícil imaginar que algo dessa natureza seja possível na Cisjordânia. Quando ouvimos falar em assentamentos, temos a impressão de um conjunto de casas ou fazendas. No entanto, alguns deles, como Ariel, são verdadeiras cidades.

Há de se perguntar quem conseguirá desmantelar toda uma cidade de 35 mil habitantes cujos moradores andam com metralhadoras a tiracolo e se veem como responsáveis pela missão divina de reconquistar a terra de seus ancestrais bíblicos. Quando o ex-primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, tentou fazer isso, foi assassinado exatamente por um colono.

A vida em Ariel é algo à parte. Seu acesso é proibido a carros que não tenham placas israelenses. A cidade é uma espécie de condomínio fechado, etnicamente homogêneo, cuja base demográfica é composta por judeus vindos da Rússia e do Brooklyn nova-iorquino. Em seus supermercados é possível encontrar caviar russo e biscoitos belgas a preços subsidiados pelo governo, o que garante um alto padrão de vida.

Ao redor, encontramos indústrias pesadas, que poluem o riacho que passa pelos vilarejos palestinos da região. No seu interior está a Universidade de Ariel, que tem um acordo de cooperação acadêmica com o Instituto de Matemática da Universidade de São Paulo.

É de perguntar qual insensibilidade inacreditável acometeu a USP para achar normal firmar um acordo dessa natureza com uma instituição construída em um território ocupado –uma ocupação internacionalmente condenada, inclusive pelo próprio governo brasileiro. Não se trata aqui de fazer coro ao equivocado pedido de boicote às universidades israelenses –equivocado porque boa parte da oposição às políticas do governo vem exatamente dessas universidades.

Já um acordo com uma instituição construída em território ocupado equivale a legitimar e normalizar tal situação, o que vai frontalmente contra as determinações da diplomacia brasileira.
Marda é um dos vilarejos palestinos ao lado de Ariel. Nele, nos encontramos com fazendeiros que tiveram suas terras paulatinamente confiscadas pelo Exército israelense por “razões de segurança”.

Um deles é Murad Alkufash, que pergunta, indignado: “Moramos aqui há séculos. Por que eu deveria aceitar que alguém que nem nasceu aqui, que veio do Brooklyn, seja senhor das terras que herdei de meu pai?”.

ÁGUA
Uma das situações mais extorsivas em relação aos direitos dos palestinos diz respeito à água. O Jordão é o único rio perene da região e está completamente em território palestino. Israel já disse de maneira clara que não devolverá o vale do Jordão, o que inviabiliza qualquer tentativa de fundar um Estado palestino que não seja um mero conjunto de bantustões.

O próprio ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, como revelou o jornal israelense “Haaretz”, em maio de 2003, dizia acreditar que a “solução” da questão palestina passaria pela criação de microterritórios semelhantes aos bantustões, Estados-fantoche criados pelo governo racista sul-africano a fim de isolar os negros em comunidades sem autonomia real ou poder efetivo, criando uma população sem direitos civis e trabalhistas.

Os palestinos que habitam a região do Jordão são segregados no que diz respeito ao consumo de água. Um colono israelense usa seis vezes mais água que os palestinos. Caso queiram mais, os palestinos precisarão comprar água de uma empresa israelense que explora o rio do qual os próprios palestinos são donos.

Diab Abdel Najoun, fazendeiro da região de Al-Auja, me contou: “Tenho fazenda, mas não posso plantar nada porque Israel cortou minha água. Vivo agora do dinheiro mandado por meus filhos”.

Ao chegar em Al-Auja, com voluntários do Conselho Mundial de Igrejas, encontramos Faiçal Najoun prostrado diante de escombros. O Exército israelense acabara de demolir um pequeno edifício comercial que ele construíra em “zona C”. Depois dos acordos de Oslo (1993), a Palestina foi dividida em três zonas: A (sob controle palestino), C (sob controle israelense) e B (sob controle misto).

No entanto, os limites são muitas vezes controversos e cambiáveis, o que faz com que boa parte dos palestinos nunca tenha segurança sobre a propriedade de sua casa. Até mesmo escolas estão atualmente sob ordem de demolição.

Diante dos escombros, Faiçal me disse esperar uma terceira Intifada, alusão feita às revoltas da população palestina, armada muitas vezes com paus e pedras, contra militares israelenses: “Israel está em guerra contra nós, agora por meio da água e da terra”.

NEGOCIAÇÃO
Pode-se ignorar o caráter dramático da situação afirmando que ela foi produzida pelos próprios palestinos. Afinal, eles teriam recusado sistematicamente toda possibilidade de negociação –a prova seria a recusa do então presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat (c. 1929-2004) a aceitar um acordo do então primeiro-ministro Ehud Barak (1999-2001) para devolver 92% do território palestino e partilhar Jerusalém.

Eu mesmo já escrevi anteriormente que foi um erro de Arafat não ter aceitado (“O Verdadeiro Alvo”, no jornal “Valor Econômico” de 6 de novembro de 2009). No entanto, vale a pena colocar o processo no seu verdadeiro contexto.

O motivo da recusa foi a intransigência de Barak em negociar o direito de retorno dos refugiados palestinos. Quando o Estado de Israel foi criado, em 1948, 711 mil palestinos fugiram de casa com medo de massacres como o ocorrido em Deir Yaassin ou das consequências do conflito árabo-israelense.

Esses palestinos têm assegurado o direito de retorno por uma decisão da ONU conhecida como Resolução 194.

Desde então, eles vivem em campos de refugiados espalhados por Jordânia, Cisjordânia e Líbano. Por muito menos, mas por razões estruturalmente semelhantes, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) invadiu o Kosovo, na ex-Iugoslávia, em 1999. Ou seja, não há nada de irracional na posição de Arafat em exigir uma solução adequada ao problema dos refugiados, embora tenha sido um equívoco estratégico.

Pode-se tentar ignorar este relato, afirmando que se trata de mais um texto marcado pela posição anti-Israel. Nada mais falso.

Melhor seria lembrar que existem dois tipos de amigos: um que dirá “sim” a tudo o que você fizer e outro que, ao ver você rumo ao abismo, segurará firme em seu braço e dirá: “É hora de mudar de caminho”.

Há de se perguntar quem é o verdadeiro amigo.

Tagged with: , ,

BLOG DO REINALDO AZEVEDO FAZ CAMPANHA ANTECIPADA PARA JOSÉ SERRA

Posted in Política by leonardomeimes on 01/02/2012

 Será que o TSE vai retirar o Blog do jornalista da revista Veja, Reinaldo Azevedo por fazer campanha explícita antecipada para o tucano José Serra? Ele vive esculhambando a Dilma Rousseff diariamente e nunca foi punido pelo TSE. Veja o que o abestalhado do Reinaldo escreve de propaganda para seu candidato:

Reinaldo Azevedo da VEJA pode. Quem não pode é a blogosfera.

O nome da doença que assola o Brasil é Reinaldo Azevedo

Posted in Política by leonardomeimes on 01/02/2012

NESTA MANHÃ, O ARTICULISTA QUE INCITA ÓDIO NA POLÍTICA BRASILEIRA SE SUPEROU. DISSE, COM TODAS AS LETRAS, QUE O ELEITOR DE LULA É SEM-VERGONHA. SE A CULPA É DO BRASILEIRO, ISSO SIGNIFICA QUE ELE JÁ ADMITIU SUA PRÓPRIA DERROTA

18 de Agosto de 2011 às 08:59

Leonardo Attuch

É triste ver uma pá de inteligência ser desperdiçada inutilmente. O articulista Reinaldo Azevedo, da revista Veja, tem cérebro, domina o vernáculo como poucos no Brasil e empresta boas quantidades de lógica ao que escreve. Mas, lamentavelmente, conseguiu se converter no porta-voz do que há de mais atrasado na política brasileira atual: a hipocrisia da moralidade. Reinaldo é o “cheerleader” do serrismo, a força derrotada nas últimas eleições presidenciais, de onde brota boa parte dos escândalos atuais.

Num longo artigo publicado na manhã de hoje, ele escreve que “o nome da doença que assola o Brasil é Luiz Inácio Lula da Silva”. É talvez seu texto mais ousado – e que representa quase uma confissão de derrota política. “Enquanto Lula for uma figura relevante da política brasileira, estaremos condenados ao atraso”, escreve Reinaldo. Então esqueça, meu caro: enquanto Lula estiver vivo, terá papel central na política nacional. E possivelmente preservará sua influência mesmo depois de morto, tal qual Getúlio, que os inimigos – porta-vozes do discurso do “mar de lama” – levaram ao suicídio.

Reinaldo joga de vez a toalha quando transfere a culpa pelo que enxerga como atraso ao cidadão brasileiro. “Há diversas razões que explicam o fenômeno, muitas delas já conhecidas. O apoio do Congresso foi vital – além da sem-vergonhice docemente compartilhada por quem votou nele. Não dá para livrar os eleitores de suas responsabilidades.” Atenção, eleitor de Lula e leitor de Veja: o mestre-sala da publicação lhe considera um meliante, um malandro, um picareta, um desonesto. Um sem-vergonha.

Ora, Reinaldo, se a culpa é do brasileiro, a conclusão é uma só: o país não tem jeito mesmo. E talvez a única solução seja o aeroporto. Não importa se 35 milhões de brasileiros cruzaram a linha da miséria na última década, se o Brasil se tornou a Meca dos investidores internacionais e se o desemprego é o mais baixo desde o início da série histórica do IBGE. O eleitor, além de mau caráter, deve ser burro, mesmo. Pior, é masoquista.

Qual seria a grande doença representada pela figura de Lula? Ah, o fisiologismo levado ao extremo, simbolizado pela aliança entre PT e PMDB, que gera tantos escândalos de corrupção. Mas será que isso foi inventado por Lula? Bom, o peemedebista Geddel Vieira Lima foi ministro da Integração Nacional de Fernando Henrique Cardoso. Mas naquele tempo ele era honesto. Lula o corrompeu. Renan Calheiros – sim, o mesmo Renan que Veja tentou derrubar em 12 capas consecutivas antes das eleições presidenciais de 2010 – foi ministro da Justiça de FHC. Mas ele também era honesto naquele tempo. Lula o corrompeu. E tem também o Eliseu Padilha, dos Transportes – como era o apelido do Padilha mesmo, Reinaldo?

Bom, e no PFL (atual DEM), é claro, só tinha gente honestíssima.

No seu artigo de hoje, Reinaldo até admite que FHC teve que sujar as mãos ao governar com alguns aliados do PMDB. “Mas era uma gestão com alguns propósitos”, diz ele. Cuidado, Reinaldo, para não cair na mesma lógica do discurso delubiano que você tanto condena – o de que, em nome do projeto, tudo é permitido. Sua ética é absoluta, pura, kantiana ou é adaptável às circunstâncias?

Reinaldo diz que muitos intelectuais apontaram na política de alianças de FHC uma rendição ao velho patrimonialismo brasileiro, tão bem diagnosticado por Raymundo Faoro. Mas o articulista indaga como é possível, ao mesmo tempo, ser patrimonialista e também reduzir o tamanho do Estado, privatizando estatais? Muito simples, Reinaldo. Basta ver como foram privatizadas as estatais. Quer um exemplo? Antes das privatizações, Benjamin Steinbruch era apenas o herdeiro de um grupo têxtil em dificuldades financeiras, a Vicunha. Mas como era também amigo de Paulo Henrique Cardoso, filho de FHC, comprou primeiro a CSN e depois a Vale. No leilão da mineradora, Antônio Ermírio de Moraes, à época o empresário mais rico do Brasil, desistiu quando percebeu que os fundos de pensão estatais, colados em Steinbruch, dariam sempre um lance maior. Detalhe: apesar de tudo isso, FHC foi, sim, um grande presidente.

Reinaldo deve ter acordado hoje inconsolável porque, apesar da queda de Wagner Rossi, a aliança entre PT e PMDB não foi abalada. Parece inquebrantável, apesar de todos os tremores. Um deputado peemedebista, Mendes Ribeiro Filho, já está sendo indicado para o Ministério da Agricultura com apoio de toda a bancada e do vice Michel Temer. E o resultado dessa aliança é um só: desloca o eixo do poder do bloco tucano para o lado petista. Os tais vinte anos de poder sonhados por Sérgio Motta têm tudo para ser alcançados por seus adversários – ou será que alguém enxerga alguma oposição viável em 2014? Aécio? Serra? Esse é o ponto central de uma discussão que não tem nada que ver com ética, moralidade ou republicanismo – diz respeito apenas à disputa pelo poder.

Significa então que a corrupção e o fisiologismo não devem ser combatidos? Evidente que devem ser atacados. Mas enquanto essa discussão não for levada a sério, no âmbito de uma reforma política, que discuta até o financiamento público das campanhas eleitorais, estaremos presos ao terreno da ética seletiva, com falsos moralistas vendendo a ideia do “mar de lama” e sugerindo a morte – real ou concreta – do “lulismo”. Esta hipocrisia, representada por você, Reinaldo, é a verdadeira doença que assola o Brasil.

Refutando Reinaldo Azevedo

Posted in Política, Textos Próprios by leonardomeimes on 01/02/2012
Contesto aqui algumas passagens de um texto de Reinaldo Azevedo, articulista  da revista Veja, publicado em dezembro de 2011 no seu blog hospedado no site da revista. Nesse texto o autor escreve sobre o grupo Clarín, os governos da Argentina, Venezuela e Brasil e sobre o Mercosul.


“Todos vimos a truculência contra o canal a cabo de TV do grupo Clarín, na Argentina. A camarilha, liderada por Cristina Kirchner, está disposta a quebrar a espinha da imprensa e conta, para isso, com setores do Judiciário, da polícia e, como sempre acontece nesses casos, do empresariado.”

 

Isso de “camarilha” e “espinhas quebradas” não é nada mais do que a já bem conhecida manipulação e tergiversação grosseira dos fatos realizada pelos empregados do PIG. Tantos os de lá como os daqui. O que ocorre é que existe um processo judicial contra um canal a cabo de TV do grupo Clarín. Esse processo é movido por uma empresa regional de TV a cabo que acusa o grupo Clarín de concorrência desleal, oferta de preços predatórios e demais procedimentos que desrespeitam a constituição do país. A invasão só ocorreu porque quando os oficiais de Justiça chegaram à sede da empresa para iniciar a intervenção foram impedidos de entrar. Então, pediram apoio para cumprir sua missão, e o tribunal ordenou a ação policial.

“Muitos oportunistas se aproveitam para obter benefícios que não seriam concedidos por um regime democrático pautado pela transparência. No Brasil, setores da esquerda e aquela corja de ex-jornalistas financiada pelo governo federal e por estatais aplaudiram a truculência da “Beiçola de Buenos Aires” — o outro ídolo da súcia é o “Beiçola de Caracas”.

O que não está pautado pela transparência é o parágrafo acima. Parece que o objetivo foi somente fazer acusações fáceis e beiçolas com um pseudo-humor à la Zorra Total. Que truculência foi cometida pela presidente da Argentina? Repito, a entrada de força policial na sede da Cablevisión decorreu de uma ordem judicial, e não de uma ordem de Cristina Kirchner, e é parte das ações de um processo judicial que nem sequer é movido pelo governo argentino e muito menos por Cristina Kirchner. Outro ponto, concretamente, quais “setores da esquerda” são financiados pelo governo e estatais? Especificamente, quais são os nomes e sobrenomes dos ex-jornalistas que seriam financiados pelo governo e estatais?
“O mais impressionante é que Cristina nem se encontrava em solo argentino. Estava em Montevidéu para participar de uma reunião do Mercosul, em companhia dos presidente do Uruguai, Paraguai, Venezuela e Brasil. Sim, Dilma Rousseff entre eles.”

Dilma Rousseff entre eles?! Como diabos ela pode ter sido capaz de participar de uma reunião do Mercosul com presidentes de países membros do Mercosul?! Terrível essa Dilma, terrível!

“O dia da operação contra o grupo Clarín foi escolhido a dedo. A presidente da Argentina quis transformar os demais líderes em cúmplices de sua investida.”

O grande mistério é: de que preciosa fonte do saber brotou essa surpreendente (pseudo) teoria de conspiração? De El Clarín?

“A propósito: a Venezuela ainda não é membro efetivo do Mercosul, e o grupo decidiu estudar meios de acelerar seu ingresso. Isso só é possível com a concordância unânime dos países, mas a decisão de cada um precisa ser referendada pelos respectivos Parlamentos. O Senado paraguaio, até agora, rejeita a Venezuela porque considera que o país transgride a cláusula democrática — o que é uma verdade absoluta.”

Verdade absoluta?! Um passarinho me contou que é sempre bom desconfiar desse treco aí. Antes de tudo, é preciso ressaltar que há mais de cinco anos a Venezuela adotou o marco legal, político e comercial do Mercosul e desde então, assim como Peru, Chile, Colômbia, Bolívia e Equador, a Venezuela é um membro associado do Mercosul e, como tal, participa de reuniões do Mercosul e é signatário de acordos sobre matérias comuns.

Para que a Venezuela passe de estado associado a “estado parte” do Mersosul é preciso a aprovação dos congressos dos países que já estão nesse grupo, a saber, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Essa vitória, que é  política e nada tem a ver com a alardeada “verdade absoluta”, depende de subjetivismos e ideologias dos membros dos congressos daqueles países. No Brasil, a oposição votou contra o ingresso da Venezuela na categoria de estado parte do Mercosul, mas como era minoria, perdeu. O mesmo ocorreu nos congressos da Argentina e do Uruguai. No congresso do Paraguai ocorre o oposto, a maioria é conservadora e tende à direita e, por isso, e só por isso, a Venezuela ainda não é um dos estados partes do Mercosul.

CQC kkkkk

Posted in Política by leonardomeimes on 01/02/2012

Reinaldo Azevedo e Veja: a torpeza como política

Posted in Política by leonardomeimes on 01/02/2012
ESCRITO POR MARCELO SOTELO FELIPPE
SEXTA, 09 DE DEZEMBRO DE 2011
 

Reinaldo Azevedo postou em seu blog violento ataque à Associação Juízes para a Democracia. O motivo foi a nota em que a entidade de juízes fez críticas à conduta da reitoria da USP e das autoridades nos recentes episódios envolvendo aquela Universidade.

 

A nota da AJD também motivou matéria da Veja. Ilustrada com uma foto da suástica nazista. Inacreditável.

 

No texto de Reinaldo Azevedo há dois aspectos que merecem atenção das pessoas razoáveis e lúcidas do país.

 

O primeiro – que foi também o mote da Veja – é a desonesta manipulação de um conceito básico das democracias contemporâneas.

 

A nota da AJD diz, em certa passagem, que a lei, seja em si mesma, seja na sua aplicação, deve ser recusada se contrariar princípios constitucionais.

 

Acontece todos os dias nas sociedades democráticas. Nas decisões dos tribunais, juízes ou administradores públicos. Do ponto de vista dos cidadãos, relaciona-se com o conceito de desobediência civil, tal como praticado por Gandhi e Martin Luther King, filosoficamente consolidado, ainda que de escassa repercussão prática. No conflito entre uma regra positiva e a moralidade, prevalecem a moralidade e os princípios constitucionais.

 

Mas o colunista pinça a frase para dizer que os juízes estão atacando o Estado de Direito e a idéia de supremacia da lei. Os juízes da AJD fizeram rigorosamente o contrário. Defenderam o Estado de Direito, a ordem constitucional e a moralidade.

 

Isto se chama delinqüência intelectual. Mostra a inacreditável má-fé e desonestidade do colunista. Podia ser burrice, mas não parece ser o caso de se atribuir burrice a Reinaldo Azevedo. É o porta-voz das trevas, simplesmente.

 

O segundo aspecto. Após conduzir, maliciosamente, seus leitores à conclusão de que a AJD é uma perigosa entidade subversiva que pretende destruir a democracia, nomina, um a um, os dirigentes da entidade.

 

Isto se chama delinqüência política. Que também atende pelo nome de fascismo. Neste momento o colunista ingressou na infame galeria em que figuram, entre outros, Joseph McCarthy e o jornalista Claudio Marques.

 

McCarthy, como os leitores devem lembrar, foi o senador norte-americano responsável pela “caça às bruxas” nos anos 50, que perseguiu e destruiu a vida de milhares de pessoas sob a acusação de esquerdismo, fazendo da delação instrumento de ação política.

 

Claudio Marques foi o jornalista que denunciou Vladimir Herzog como perigoso esquerdista infiltrado na TV Cultura. Herzog foi preso após a infame campanha movida por Claudio Marques e o fim do episódio todos conhecemos.

 

Reinaldo Azevedo vem numa escalada de violência verbal. Perdeu a noção de limites. Embriagado pelo sucesso de sua retórica ultradireitista em certo segmento social, criou um círculo vicioso em que ele e seus leitores alimentam-se reciprocamente de ódio. Sua linguagem incita o ódio dos leitores, e o ódio dos leitores o incita a tornar-se mais violento e permissivo.

 

Quem lê “A Chegada do III Reich”, do historiador inglês Richard Evans, identifica esse mesmo mecanismo na República de Weimar. Figuras semelhantes a Reinaldo Azevedo pululavam. O conceito clássico de fascismo é o uso da violência como instrumento político. Nenhuma violência política se viabiliza sem uma etapa anterior de ódio e violência verbal. Este o papel em que Reinaldo Azevedo e Veja se comprazem. O fascismo não surge por geração espontânea. Germina pouco a pouco com semeadores desse tipo.

 

Conflitos políticos resolvem-se, em uma democracia, por procedimentos antecedidos por diálogos em que os sujeitos agem racionalmente e submetem-se a tais procedimentos independentemente de seu resultado. Quem, como a Veja ou Reinaldo Azevedo, aventura-se no caminho da infâmia e da torpeza recusa esse diálogo racional e recusa os mecanismos democráticos. Não se importa mais com a política democrática, fazendo falsas profissões de fé na democracia. Vislumbra apenas o ódio como meio de ação política. Se o ódio não for suficiente, vai recorrer a outro tipo de violência.

 

 

Marcelo Sotelo Felippe é procurador do estado de São Paulo.