Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

Barthes segundo Eagleton

Posted in Filosofia, Literatura by leonardomeimes on 25/09/2012

A ideologia procura transformar a cultura em Natureza, e o signo “natural” é uma de suas armas. A continência à bandeira, ou a aceitação de que a democracia ocidental representa o verdadeiro significado da palavra “liberdade”, tornam-se as mais óbvias e espontâneas reações do mundo. A ideologia, nesse sentido, é uma espécie de mitologia contemporânea, uma esfera que se purgou da ambiguidade e da possibilidade alternativa.

O Prazer do Texto – Roland Barthez

Posted in Literatura by leonardomeimes on 08/05/2012

Estou relendo Barthes, O Prazer do Texto, e retomo algumas citações e outras que agora vi a importância:

Daí, talvez, um meio de avaliar as obras da modernidade: seu valor proviria de sua duplicidade. Cumpre entender por isto que elas têm sempre duas margens. A margem subversiva pode parecer privilegiada porque é a da violência; mas não é a violência que impressiona o prazer; a destruição não lhe interessa; o que ele quer é o lugar de uma perda, é a fenda, o corte, a deflação, o fading que se apodera do sujeito no imo da fruição. A cultura retorna, portanto, como margem: sob não importa qual forma (BARTHEZ, 1987, p. 12-13).

Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem (BARTHEZ, 1987, p. 22).

A sociedade vive sobre o modo da clivagem: aqui, um texto sublime, desinteressado, ali um objeto mercantil cujo valor é… a gratuidade desse objeto. Mas a sociedade não tem a menor ideia do que seja essa clivagem: ela ignora sua própria perversão (BARTHEZ, 1987, p. 34).

Diz-se correntemente: “ideologia dominante”, poque não há ideologia dominada: do lado dos “dominados” não há nada, nenhuma ideologia, senão precisamente – e é o último grau da alienação –  a ideologia que eles são obrigados (para simbolizar, logo para viver) a tomar de empréstimo à classe que os domina. A luta social não pode reduzir-se à luta de duas ideologias rivais: é a subversão de toda ideologia que está em causa) (BARTHEZ, 1987, p. 45).

Leitores: caçando erros

Posted in Literatura by leonardomeimes on 22/03/2012

Sírio Possenti

De Campinas (SP)

 


(foto: Getty Images)

 

Quem escreve está sujeito a chuvas e trovoadas, fato de que trata o provérbio “quem vai pra chuva tem que se molhar”. Leitores são misteriosos. Nunca se sabe se compreendem um texto, se o colocam no patamar (no interdiscurso) adequado, se levam em conta ou se conhecem alguma bibliografia da área ou pelo menos os textos anteriores que alguém publicou e que funcionam como referência. Estarão a fim de ouvir coisas novas ou acham que tudo o que se pode saber está no livro da quinta série?

Há algum tempo, leitores desta coluna escreviam críticas (eventualmente, elogios) diretamente para meu e-mail. Às vezes, eu passava parte da quinta-feira respondendo (de vez em quando, eu os tratava como eles me tratavam, confesso). Atualmente, eu teria que tuitar ou facebucar ou logar. Não faço nada disso. Então eles nem sabem se os leio. Mas leio.

Hoje, decidi responder na coluna aos comentários que vi até o final da semana. Transcrevo e comento:

“Estudar pra que? Talvez pra entender que quem fala ‘certo’ não é melhor que alguém que fale uma variante menos privilegiada!” (na foto, um casal feliz; assinado por Thiago Moessa Alves).

Não sei se entendi a pergunta “estudar pra quê?”, mas deixemos isso de lado, por ora. Posso considerar que comentário está adequadamente escrito, levando em conta que se trata de situação informal. De outra perspectiva (a deles?), diria que há dois erros: pra por para e que sem acento. Mas o fundamental é: quem disse que não era bom estudar? O texto insinuava que temos que estudar de verdade, até para compreender a natureza dos “erros” ou dar-lhes uma adequada avaliação histórica, que inclui perceber quando estão deixando de ser erros.

Celio (sem acento?) Esteves Leal Leal (sic!) escreveu que “O certo e escrever e falar errado nao e, salve o lula!!!”. Deveria ter escrito “O certo é escrever e falar errado, não é? Salve o Lula!!!”. Ou seja, ele erra bem mais em uma linha do que Lula em oito anos de falação. Se mais escrevesse, mais erraria. Célio representa os leitores que ficam horrorizados com os erros, mas porque pensam que eles não erram. Só que não acertam nada! Não leem e não escrevem. E, claro, não estudam (ou pensam que a porcariazinha que sabem é cultura). Talvez sejam masoquistas: seu prazer consiste em que lhes digam que não sabem português.

Angela Rosas disse (comento em itálico, na bucha): “Pra que formar professores?” (pois é, “para que?”). Universidades são gastos (universidades são gastos? Cruzes!) desnecessários (cursou alguma? Então, parece que sim). Cada um que escreva e fale como bem entender (como Ângela, digo eu). Nesse raciocínio (que tal “segundo esse raciocínio”?), estudar é perda de tempo (o texto mostra um caso típico). Isso sim, é pobreza mental (ela deve ter tido uma centena de aulas sobre não separar sujeito de predicado com vírgula, mas a coisa não entrou! Quem sabe ela lê algo sobre tópico e comentário para poder defender sua vírgula?).

titania puck (assim mesmo) escreveu: “pensei que fosse o contrário: erros de português denotavam – embora essa denotação fosse relativa e tivesse as inevitáveis excelções – POBREZA MENTAL”. É claro que em “excelções” há um mero erro de digitação (eu cometo milhares). Os problemas deste comentário são outros: variantes não são erros, em sentido técnico; ninguém conseguiu mostrar até hoje que falar de uma ou de outra forma implique maior ou menor sofisticação ou pobreza mental. Além disso, como Shasçha (ver abaixo), ele se refere apenas à última linha de meu texto, que defendia uma tese: erros mudam conforme o status dos escritores ou falantes. É uma questão histórica. Por isso não empregamos mais certas construções camonianas. E alguns leitores não empregam nem mesmo as que eu emprego, só que não percebem… Fora isso (ufa!) a frase de titânia é bem boa. Mas seu nome não está errado? Deveria ter acento, eu acho, e começar com maiúscula (que pobreza!). Ah, o aparelho não permite? E por que não troca de aparelho para pode escrever direito? Não é grande pobreza mental submeter-se a um aparelho com teclado estrangeiro?

Finalmente, um genial Shasçha interveio de forma brilhante: “Estudar pra quê, né Sírio?”. Escreveu tudo certinho. Mas adota um Nick idiota (para rimar). E não leu o texto. Talvez não consiga ler mais de uma linha. Por que estudar seria seguir as regras da gramática tradicional, ou melhor, como já cansei de dizer, dos pequenos manuais que apenas as simplificam?

O que eu queria dizer como fecho dessa coluna foi dito por Luisando Mendes na segunda-feira.

Que pobreza mental, mas, sobretudo, que chatice é caçar erros!

Humberto Eco – Seis Passeios pelos Bosques da Ficção

Posted in Literatura by leonardomeimes on 09/03/2012

Uma citação interessante em que Eco percebe que na nossa vida a questão religiosa traz uma profunda amostra de como o humano está “perdido” e “sem regras para compreender o mundo” e recorre ao que na literatura chamamos de autor-modelo, aquele que lhe guia a uma determinada leitura da história, criando uma ficção de Deus para que nossa vida tenha um motivo, um começo e um fim: um autor-modelo.

Vivemos no grande labirinto do mundo real, que é maior e mais complexo do que o mundo de Chapeuzinho Vermelho. É um mundo cuja estrutura total não conseguimos descrever. Na esperança de que existam regras do jogo, ao longo dos séculos a humanidade vem se perguntando se esse labirinto tem um autor ou talvez mais de um. E vem pensando em Deus ou nos deuses como autores empíricos, narradores ou autores-modelo. As pessoas tentam imaginas uma divindade empírica: se tem barba; se é Ele, Ela ou Isso; se nasceu ou sempre existiu; e até (em nossa própria época) se morreu. Sempre se procurou Deus como Narrador – nos intestinos dos animais, no voo dos pássaros, na sarça ardente, na primeira frase dos Dez Mandamentos. Alguns, todavia (inclusive filósofos, é claro, mas também adeptos de muitas religiões), procuram Deus como Autor-Modelo – que dizer, Deus como a Regra do Jogo, como a Lei que torna ou um dia tornará compreensível o labirinto do mundo. A divindade nesse caso é algo que precisamos descobrir ao mesmo tempo que descobrimos por que estamos no labirinto e qual é o caminho que nos cabe percorrer.

No entanto há outro motivo pelo qual nos sentimos metafísicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os criptoanalistas confiam – a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que há uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás dele como criador e dentro dele como um conjunto de instruções de leitura.

Assim, nossa busca do autor-modelo é um Ersatz para aquela outra procura, no curso da qual a Imagem do Pai se esvaece na Névoa do Infinito, e nunca deixamos de nos perguntar por que existe alguma coisa em vez de nada.

O que não significa que sem Deus não há paz.

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Roland Barthes – O Prazer do texto

Posted in Literatura by leonardomeimes on 26/01/2012

Essas produções da arte contemporânea, que esgotam a sua necessidade tão logo a pessoa as viu (pois, vê-las , é compreender imediatamente com que fim destrutivo são expostas: não há mais nelas nenhuma duração contemplativa ou deleitativa).

À direita, o prazer é reivindicado contra a intelectualidade, o clericato: é o velho mito reacionário do coração contra a cabeça, da sensação contra o raciocínio, da “vida” (quente) contra “a abstração” (fria): o artista não deve, segundo o sinistro preceito de Debussy, “procurar humildemente causar prazer”.

À esquerda, opõe-se o conhecimento, o método, o compromisso, o combate, à “simples deleitação” (no entanto, e se o próprio conhecimento fosse por sua vez delicioso?).

Roland Barthes – O Prazer do Texto

Posted in Literatura by leonardomeimes on 24/01/2012

O prazer do texto é semelhante a esse instante insustentável, impossível, puramente romanesco, que o libertino degusta ao término de uma maquinação ousada, mandando cortar a corda que o suspende, no momento em que goza.

O autor está morto: sua pessoa civil, passional, biográfica, desaparecey, já não exerce sobre sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham o encargo de estabelecer e de renovar a narrativa: mas no texto, de uma certa maneira, eu desejo o autor: tenho necessidade de sua figura (que não é nem sua representação nem sua projeção), tal como ele tem necessidade da minha (salvo no “tagarelar”).

Por tagarelar entendam aquelas obras que visam apenas o prazer básico de se chegar ao fim do livro e conhecer toda a história… particularmente obras de literatura de entretenimento que não propiciam aquela fruição de um grande livro, escrito por alguém que não tagarela, mas sim desenlaça a bel prazer seu texto.

A forma bastarda da cultura de massa é a repetição vergonhosa: repetem-se os conteúdos, os esquemas ideológicos, a obliteração das contradições, mas variam-se as formas superficiais: há sempre livros, emissões, filmes novos, ocorrências diversas, mas é sempre o mesmo sentido.

A luta social não pode reduzir-se à luta de duas ideologias rivais: é a subversão de toda ideologia que está em causa.

O estereótipo é um fato político, a figura principal da ideologia.

A configuração atual das forças: de um lado, um achatamento de massa (ligado à repetição da linguagem) – achatamento fora-de-fruição, mas não forçosamente fora-de-prazer – e de outro, um arrebatamento (marginal. excêntrico, não imoral por não pressupor nada) rumo ao novo – arrebatamento desvairado que poderá ir até a destruição do discurso: tentativa para fazer ressurgir históricamente a fruição recalcada sob o estereótipo.

Talvez não retorne o sujeito, não como ilusão, mas como ficção. Um certo prazer é tirado de uma maneira da pessoa se imaginar como indivíduo, de inventar uma última ficção, das mais raras: o fictício da identidade. Essa ficção não é mais ilusão de uma unidade; é ao contrário o teatro de sociedade onde fazemos comparecer nosso plural: nosso prazer é individual – mas não pessoal.

Dalton Trevisan – O Nariz

Posted in Literatura by leonardomeimes on 10/01/2012

Um poema em prosa presente no livro O Anão e a Ninfeta, última publicação com inéditos de Dalton Trevisan…

 

A moça feinha

junta com sacrifício

o dinheiro de operar o nariz

 

anestesia pouca

dão-lhe outra geral

sofre parada cardíaca

entra em coma

 

dias semanas meses

um simples vegetal

 

a mãe viúva à sua cabeceira

chora geme reza

uma lágrima suspensa

na vírgula do nariz

Solaris – mais um trecho

Posted in Literatura by leonardomeimes on 22/10/2011

Todos sabemos que somos criaturas materiais, sujeitos às leis da fisiologia e da física e nem mesmo a força de todos os nossos sentimentos combinados pode vencer essas leis. Podemos apenas detestá-las. A fé, velha como a vida, dos amantes e dos poetas no poder do amor, que é mais forte que a morte, que finis vitae sed non amoris, é uma mentira inútil e nem mesmo divertida. Teremos, pois, de nos resignar a ser um relógio que mede a passagem do tempo, umas vezes a funcionar bem, outras a precisar de reparação, cujo mecanismo gera o desespero e o amor logo que é posto em funcionamento pelo seu fabricante? Teremos de nos habituar à ideia de que todos os homens revivem velhos tormentos, tormentos esses que ficam cada vez mais profundos porque se vão tornando cômicos com a repetição? Que a existência humana tenha de repetir-se está bem, mas que se repita como uma música em voga ou um disco que um bêbado faz continuamente tocar, enquanto vai metendo moedas na máquina dos discos.

Stanislaw Lem – Solaris

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Snow sobre a ciência…

Posted in Literatura by leonardomeimes on 21/10/2011

– Você acredita na missão da humanidade, não acredita, Kelvin? Está a pôr-me fora? Você também? Você não faz a barba e põe-me fora? E que me diz dos meus avisos, dos meus conselhos? Colegas interestrelares devem ajudar-se uns aos outros! Ouça Kelvin, vamos lá em baixo, abrimos as comportar e chamamos. Talvez nos ouça. Mas qual é o nome dele (se referindo ao Oceano de Solaris)? Demos nomes a todas as estrelas e planetas, embora talvez já tivessem os seus próprios nomes. Que descaramento! Venha, vamos lá em baixo. Vamos gritar-lhe  uma tal descrição da peça que nos pregou que talvez se comova. Fará para nós simetríades de prata, orará em forma de cálculos, enviar-nos-á os seus anjos ensanguentados. Partilhará os nossos problemas e terrores e pedir-nos-á que que o ajudemos a morrer. Já nos está a implorar-nos que o ajudemos a morrer. Você não está a achar graça… mas já sabe que eu sou um brincalhão. Se as pessoas tivessem mais sentido de humor, talvez as coisas tivessem corrido de modo diferente. Sabe o que ele quer fazer? Quer castigar o Oceano, ouvi-lo gritar do topo de todas as suas montanhas ao mesmo tempo Se pensa que ele nunca terá a coragem de apresentar o seu plano àquele punhado de velhos tremelicantes que nos mandaram para aqui para nos redimirmos de pecados que não cometemos, tem razão, ele tem medo. Mas tem medo apenas do pequeno chapéu, não ousa, Fausto não.

Quem é responsável? Que é responsável por esta situação? Gibarian? Giese? Einstein? Platão? Todos criminosos… Repare, num foguetão uma pessoa corre o risco de rebentar como um balão, de congelar ou assar ou de cuspir todo seu sangue numa única golfada, antes mesmo de poder gritar e tudo o que sobra são bocadinhos de osso a flutuar dentro de cascos blindados, de acordo com as leis de Newton, corrigidas por Einstein, dois marcos milenários do nosso progresso… Seguimos pela estrada fora, cheios de fé e vemos onde nos conduz. Pense no nosso sucesso, Kelvin; pense nas nossas cabinas, nos pratos inquebráveis, nas pias imortais, legiões de fiéis quada-roupas, dedicados armários… Se não tivesse bêbado, não estaria a falar desta maneira, mas mais cedo ou mais tarde alguém tinha de dizer essas coisas, não é? Você fica aí sentado como um cordeiro num matadouro e deixa a barba crescer… De quem é a culpa? Descubra-o você mesmo.

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Sonho de Kris Kelvin – Stanislaw Lem (do livro Solaris)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 20/10/2011

É assim que o sonho começa.

Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiscência e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo e nunca sinto o mínimo temor.

Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objecto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me e sou tocado, a minha prisão é tocada e sinto esse contacto como uma mãe. Essa mão recria-me. até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora os tenho! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e face emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar – existo. Uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca antes vira, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar-lhe o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos e num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade , descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura – uma mulher? – permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de umas coisas negras e rastejantes e sou – somos – uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim. Nessa infinidade, não, eu sou infinito e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Sou dispersado em todas as direções e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega à distância escura e encarnada, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.

Esse sonho foi um dos mais simples.

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