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Humberto Eco – Seis Passeios pelos Bosques da Ficção

Posted in Literatura by leonardomeimes on 09/03/2012

Uma citação interessante em que Eco percebe que na nossa vida a questão religiosa traz uma profunda amostra de como o humano está “perdido” e “sem regras para compreender o mundo” e recorre ao que na literatura chamamos de autor-modelo, aquele que lhe guia a uma determinada leitura da história, criando uma ficção de Deus para que nossa vida tenha um motivo, um começo e um fim: um autor-modelo.

Vivemos no grande labirinto do mundo real, que é maior e mais complexo do que o mundo de Chapeuzinho Vermelho. É um mundo cuja estrutura total não conseguimos descrever. Na esperança de que existam regras do jogo, ao longo dos séculos a humanidade vem se perguntando se esse labirinto tem um autor ou talvez mais de um. E vem pensando em Deus ou nos deuses como autores empíricos, narradores ou autores-modelo. As pessoas tentam imaginas uma divindade empírica: se tem barba; se é Ele, Ela ou Isso; se nasceu ou sempre existiu; e até (em nossa própria época) se morreu. Sempre se procurou Deus como Narrador – nos intestinos dos animais, no voo dos pássaros, na sarça ardente, na primeira frase dos Dez Mandamentos. Alguns, todavia (inclusive filósofos, é claro, mas também adeptos de muitas religiões), procuram Deus como Autor-Modelo – que dizer, Deus como a Regra do Jogo, como a Lei que torna ou um dia tornará compreensível o labirinto do mundo. A divindade nesse caso é algo que precisamos descobrir ao mesmo tempo que descobrimos por que estamos no labirinto e qual é o caminho que nos cabe percorrer.

No entanto há outro motivo pelo qual nos sentimos metafísicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os criptoanalistas confiam – a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que há uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás dele como criador e dentro dele como um conjunto de instruções de leitura.

Assim, nossa busca do autor-modelo é um Ersatz para aquela outra procura, no curso da qual a Imagem do Pai se esvaece na Névoa do Infinito, e nunca deixamos de nos perguntar por que existe alguma coisa em vez de nada.

O que não significa que sem Deus não há paz.

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