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Sonho de Kris Kelvin – Stanislaw Lem (do livro Solaris)

Posted in Literatura by leonardomeimes on 20/10/2011

É assim que o sonho começa.

Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiscência e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo e nunca sinto o mínimo temor.

Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objecto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me e sou tocado, a minha prisão é tocada e sinto esse contacto como uma mãe. Essa mão recria-me. até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora os tenho! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e face emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar – existo. Uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca antes vira, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar-lhe o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos e num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade , descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura – uma mulher? – permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de umas coisas negras e rastejantes e sou – somos – uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim. Nessa infinidade, não, eu sou infinito e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Sou dispersado em todas as direções e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega à distância escura e encarnada, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.

Esse sonho foi um dos mais simples.

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