Moscas Mortas Revolution – Página Inicial

SULA

Posted in Contos, Textos Próprios by leonardomeimes on 16/06/2011

            Lá ia Sula, sempre às voltas com seu vestido rasgado e sua loucura instável. Andava descalça de corcova sempre em riste, quase agachada, arrastando as mãos no chão em busca do que apanhar e olhando freneticamente para os lados como se escondesse algo. Do que restou ela vivia, a mulher não tinha que se preocupar com mais nada e seu rosto era a prova viva: antes maculado com grandes roxos de violência, porém, naqueles dias, andava sujo e ranhento, como uma criança que causa náusea. Sula sempre tinha as calças embosteadas e o cheiro acompanhava.

            Apanhava, diziam, sempre se ouviam gritos e loucuras, ambos que moravam naquela casa indigente, de madeira e de terreno mal cuidado, eram perturbados de maneira que não sobrava entendimento pacífico. Sula devia sua loucura às constantes sovas. O marido, um russo cujo nome ignoro, era carvoeiro, mal garantia a comida, proibia que Sula saísse e que trabalhasse, chegava sempre soluçando com as palmas já esticadas e prontas para serem dadas. E eram muitas.

            Sem ninguém para controlar o cotidiano absurdo dos dois, eles ali ficavam e se entregavam à loucura recíproca. De minha casa, quase em frente, era possível ver parte do quintal e a entrada da casa, havia mato, muita madeira, sacolas com lixo para todo lado, pneus e entulhos de obra. O terreno emana cheiro de bicho morto, cercado com uma cerca farpada, já caída em parte, e, apenas na frente, um muro baixo e cinza. Os ratos e baratas são comuns àquela casa, em que nem mesmo as janelas têm vidros mais.

            Em nossa rua, poucos falavam com o casal, Sula, nome que descobri apenas depois de ela ser levada pela polícia, não conseguia ter contato com ninguém e ficava sempre dentro dos limites de casa. O marido pouco falava nossa língua e ademais estava sempre bêbado, quando não estava fora trabalhando. Em um mês os moradores que se aborreciam com a presença desagradável de ambos se viram livres do tormento. Começou quando o homem desapareceu…

            Até então, grande parte da vizinhança evitava notar a presença de ambos, porém foram obrigados, a partir do sumiço do homem, a conviver com Sula. A mulher, sem ter do que viver, perturbava a vizinhança, ai a náusea que as pessoas tinham quando ela lhes pedia comida! Sula era uma visão desagradável, o rosto retorcido por uma dor constante, tinha uma mão sempre posta acima do peito como se algo ali estivesse segurando; o nariz estremecia enquanto Sula buscava em sua insanidade as expressões necessárias. O mau cheiro agredia as narinas acostumadas aos perfumes, ninguém permitia que a mulher chegasse a suas casas, ao contrário, lhe entregavam algo para comer sem olhar, segurando a respiração e pensando em qualquer outra coisa, antes que o nojo fosse demais. Sula era grande parte do dia silenciosa e para mendigar não falava, para isso tinha os olhos.

            As calças de Sula, sempre com o fundilho molhado, não a permitiam caminhar por muito tempo e caiam, o que a forçava a manter-se parada. Por isso, comia sempre sentada na tampa de cimento de um poço, no quintal de sua casa. De fato, naquele mês, passou a maior parte do tempo ali. Olhava para os lados e não mexia mais do que o pescoço, constantemente procurando ou esperando algo que não lhe aparecia e a boca entoava múrmuros mudos e constantes. Aquela cena se repetiu todos os dias como se a louca estivesse amaldiçoando a todos enquanto notava a imensa insanidade que também havia fora de sua casa.

            O poço antigo era antes usado por toda a vizinhança, agora estava sempre fechado, o progresso havia chegado e com ele a água corrente. Se já não tinham motivos para usá-lo, agora não tinham motivos nem para pensar em sua existência. Aquela constante náusea chegou a um veredito, os moradores começaram a ignorar a mulher, não lhe alimentavam e sequer saiam de casa para atendê-la. Sula deve ter passado dias sem comer. Foi, então, que eu entrei nessa história, ao passar pela frente da casa e do terreno vi algo que não merecia ser contado.

            Nossos bueiros sempre contavam com a presença de ratazanas, os bichos iam de um para o outro e cruzavam a rua como pedestres, principalmente durante a noite. Já estava acostumado a ver esses hóspedes indesejados e a correr atrás deles fazendo-os apressarem-se para os bueiros; porém quando os encontrava mortos eu era impelido a retirar aquela carcaça de meu convívio e a atirava mato à dentro, no terreno ao lado da casa de Sula. Pegava-o pelo rabo, fazia um giro com o braço e atirava longe. Quando era atropelamento a ânsia era maior, tinha que descolar aquele corpo do asfalto com um pedaço de pau e uma pá para depois poder desová-lo.

            Nesse dia, quando voltava da casa de um amigo, ao chegar a minha rua vi Sula parada em frente a sua casa, olhando para algo no asfalto. Aos poucos fui me aproximando para entrar em casa e a imagem foi ficando cada vez mais nítida. A mulher tinha as calças arreadas, provavelmente caídas, as mãos mexiam constantemente nos cabelos, os músculos das pernas se comprimiam incessantemente como se latejassem e os olhos estavam fixos no chão, em uma ratazana morta. Pensei em parar, porém não queria presenciar aquela loucura e então corri até o portão de minha casa. Entrei, fechei-o por dentro, dele vi Sula, na mesma posição, arrancar os cabelos em movimentos constantes, seus dentes rangiam fazia-me encolher meus ombros, uma agonia. Corri para dentro de casa.

            Contei para minha mãe, logo ela estava em frente de casa gritando para que a mulher parasse e atraindo a atenção de toda vizinhança que aos poucos foi saindo de casa para presenciar o que era inevitável. Embora minha mãe não quisesse que eu visse, aproveitei que anoitecia e saí sem ser percebido de casa e vi todo o desenrolar da situação de cima do muro. Sula, ignorando os gritos de mamãe, decidiu-se, parou de arrancar os cabelos, abaixou-se e lançou mão do corpo do rato para, em seguida, morder-lhe a barriga. A boca mastigava com gosto e seus olhos não desgrudavam daquela refeição.

            Um de meus vizinhos chamou a polícia que demorou um bocado a chegar, nisso Sula entrou em sua casa e sentou-se na tampa do poço, ali terminou sua refeição e, depois, se dedicou a esfolar com as unhas o cimento. Os dois policiais entraram pelo portão de sua casa, olharam para tudo que ali estava jogado no quintal, a quantidade de lixo e encontraram a mulher atormentada. Sula ao vê-los entrou em pânico, começou a gritar coisas não compreensíveis, como se contasse uma história absurda em outra língua, batia os pés de pé em cima da tampa do poço e, com os braços estendidos, não permitia que os homens chegassem próximo.

            Sem saber o que fazer um dos policiais levantou um revólver e deu dois tiros para o alto, todos que presenciavam estremeceram e recuaram de susto, Sula disparou a correr pelo quintal da casa, sem as calças que caíram por completo. Quando a mulher entrou correndo em casa os policiais foram atrás e saíram de lá carregando a mulher desmaiada. Finalmente o tormento parecia ter chegado ao fim.

            Para mim ainda não, intrigado pela loucura daquela mulher decidi ir até a casa um dia à tarde. Pulei o portão para não fazer nenhum barulho e, passando pelo jardim sem atentar, encontrei a porta amigavelmente aberta. Dentro, uma sala, coberta de jornais, revistas, sacolas de lixo, embalagens usadas de comida e um fedor de podre que se misturava com cheiro de mofo. Todos os cômodos estavam igualmente arrumados e o quarto de Sula não era diferente, a cama estava quebrada, caída para um lado, em cima muita imundice, o casal nunca deve ter levado o lixo para fora.

            Ao fazer a volta para sair reparei nas paredes, estavam todas escritas, arranhadas na madeira com algo pontiagudo, palavras irreconhecíveis, não entendê-las me fez sentir a cabeça inchar e doer. Logo percebi que se me demorasse ali terminaria louco, como Sula. Corri para fora da casa, fazendo um barulho grande pelo chão de madeira e logo estava no jardim novamente, parei ofegante e coloquei minhas mãos sobre os joelhos descansando. Nisso lembrei-me, que no dia em que a levaram, a louca arranhara insandecidamente a tampa do poço. Decidi ir investigar.

            Passei pelo quintal desviando de tudo que havia ali, abrindo passagem em meio aos entulhos e às plantas e, finalmente, cheguei até o poço. Aproximei-me devagar sem saber o que encontraria e logo pude observar a parte de cima da tampa, havia marcas de sangue, provavelmente das unhas que a louca havia arrancado enquanto arranhava. Havia certo cheiro de podre no ar e muitas moscas, consegui ver que a tampa estava um pouco fora de seu lugar, deixando uma estreita parte do poço aberta. Ao chegar perto dessa fenda senti o cheiro aumentar e as moscas saíam e entravam por aquele espaço freneticamente.

            Pensei em abrir a tampa por completo, por sorte o nojo tomou conta de meu corpo, estremeci pensando no que podia estar ali dentro e daquele ponto de vista reconheci o que Sula havia arranhado em cima da tampa. Uma cruz era pouco visível, a mulher não conseguira terminar o desenho, portanto, algumas partes eram muito fracas e isso impediu que os policiais entendessem a que o poço se prestaria a partir de então.

            Sula havia respondido à violência que sofria com violência e sepultado, ali, o motivo de seu tormento. Para que esse passado não voltasse a atormentá-la empurrei a tampa fechando por completo o poço, ao sair da casa me comprometi a não contar a ninguém e, no fim, senti um apego estranho pela figura daquela louca e um remorso latente. Afinal, fomos todos cúmplices daquele crime.

Leonardo Meimes

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