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O FANTÁSTICO COMO EXPERIÊNCIA ESTÉTICA – Uma análise do conto Bárbara de Murilo Rubião

Posted in Literatura by leonardomeimes on 24/03/2011

Leonardo Meimes

 

1. O PIROTÉCNICO ZACARIAS E A OBRA DE MURILO RUBIÃO

A sensação de estranhamento que permeia toda a obra de Murilo Rubião, assim como a literatura fantástica em geral, se faz presente pelas situações pouco comuns que os personagens vivem, e como suas vidas estão mudando. Murilo Rubião é conhecido pelas suas histórias mágicas, já com seu primeiro livro, chamado O Ex-mágico, autor desfila vários personagens incomuns, como o mágico que consegue fazer animais aparecerem de suas mangas e reconstituir membros amputados. Adepto do gênero contos, Rubião, em sua obra aqui estudada – O Pirotécnico Zacarias -, publicou 10 contos, todos fantásticos, entre eles os famosos contos O Pirotécnico Zacarias e Teleco o Coelhinho. Ambos exemplares fiéis à literatura desse autor.

Rubião é o responsável pela difusão desse gênero pouco trabalhado na literatura brasileira, e pouco lido também. Foi o autor que deu início a uma “escola” de romancistas e contistas que se aventuraram pela fantasia e pelo nonsense, incluindo Moacir Scliar e José J. Veiga, e usa, como Kafka, o estilo fantástico como metáfora para a condição humana. A linguagem é simples, porém os eventos são todos carregados de significação e fantasia, por isso o escopo dessa análise se foca apenas em dois desses contos, pela impossibilidade de tratar de toda obra em um espaço restrito. O conto Bárbara é um bom exemplo de como o fantástico é utilizado como metáfora para questões humanas. Cabe aqui, então, fazer uma análise de como ele trata da temática do consumismo e de como o fantástico ajuda a criar um efeito estético que auxilia a recepção desses temas por leitores que costumeiramente não discutem tais problemáticas.

1.1. O CONTO BÁRBARA E A TEMÁTICA DO CONSUMISMO

Resumidamente, o conto narra em primeira pessoa a história de Bárbara, uma mulher que é viciada em pedidos que sendo realizados a fazem engordar proporcionalmente ao pedido e não sendo atendidos a fazem definhar. O narrador, esposo de Bárbara, conta então o seu sofrimento com a condição de sua esposa, que mesmo tendo os pedidos realizados não lhe presta o amor que gostaria de receber em troca. No começo os pedidos de Bárbara não incomodavam, porém com o tempo a mulher foi ficando muito grande e gorda e os desejos cada vez mais caros. Os desejos vão desde que o marido agrida outras pessoas até o oceano, que lhe é trazido em uma garrafa.

Claramente a história trata da temática do consumismo e da quantidade de desejos que temos que não servem para saciar alguma necessidade imediata, servem apenas para nos “engordar”. Um exemplo desse desejo é o caso do baobá, em que Bárbara pede que seu marido lhe consiga um baobá igual ao do vizinho. A mulher não fica satisfeita com um galho da árvore e a recusa do vizinho em vender a árvore obriga o marido a comprar toda a casa do vizinho por um preço muito maior do que o de mercado. No fim do conto esse consumismo exacerbado de Bárbara já levou sua família a uma situação de pobreza e de desespero, porém a mulher, já muito gorda e imóvel, ainda continua almejando mais e mais. Um fim que é repleto de significados particularmente nos últimos desdobramentos do conto.

Bárbara se mostra como uma figura que quanto mais consome menos se relaciona com o mundo à sua volta. Quando ela ganha um navio, trata de se refugiar dentro dele e não sai mais, ficando isolada de sua família e do resto do mundo. É um isolamento que representa a desumanização da pessoa que consome e ao mesmo tempo certo narcisismo por parte de Bárbara que quando tem um novo pedido realizado só tem olhos e atenções para tal e esquece-se das outras coisas. O pedido final, mostra como o fantástico pode assumir níveis simbólicos que o realismo não assume. O fato de ela almejar uma estrela, e o fato dele aceitar o pedido e ir buscá-la, mostra um fechamento para a história que confirma o amor do narrador por Bárbara e, juntamente, que a sede de consumo de Bárbara não terá fim mesmo quando a tarefa é impossível de ser realizada.

2. O FANTÁSTICO COMO EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

Como uma metáfora do ser humano que precisa ostentar e possuir para se afirmar como tal, o conto de Rubião usa como estratégia principal o absurdo. Já evidenciado em seu começo:

Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava.

Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos (RUBIÃO, O Pirotécnico Zacarias, 1986).

Somente a situação de Bárbara, de engordar a cada pedido realizado já é fantástica o suficiente, porém conforme os desejos vão ficando maiores as situações com características praticamente oníricas surgem com mais intensidade para dar ao leitor a consciência de que tudo é possível:

Dentre os transatlânticos ancorados no porto, escolhi o maior. Mandei que desmontassem e o fiz transportar à nossa cidade (…).

(…) Numa área extensa, formada por vários lotes, Bárbara acompanhou os menores detalhes da montagem da nave. (…)

(…) Montado o barco, ela se transferiu par Alá e não mais desceu à terra (RUBIÃO, O Pirotécnico Zacarias, 1986).

Assim o absurdo de alguém transportar um navio para a cidade montá-lo e nele viver prepara o leitor para a situação final em que o desejo não é humanamente realizável:

Não pediu a Lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la (RUBIÃO, O Pirotécnico Zacarias, 1986).

O conto deixa para o leitor decidir o que aconteceu com ambos nessa empreitada em busca de uma estrela. Essas situações fantásticas, mais uma vez, dão um tom mais digestível à temática do consumismo e fazem com que o texto de Rubião tenha sucesso em sua recepção.

Para Jauss (1979, p. 46) o primeiro contato com a experiência estética começa durante a sintonia do leitor com o efeito estético de uma obra, na compreensão fruidora e na fruição compreensiva. Sabemos que ao serem feitos os textos, tanto literários quanto utilitários, eles não tem a intenção primeira de serem interpretados, ao contrário eles são feitos para o leitor. Esse leitor apenas gostará de uma arte se conseguir entendê-la (fruição compreensiva) e só compreenderá o que aprecia (compreensão fruidora), ambos processos simultâneos, que resgatam, valorizam a experiência estética e produzem um efeito (ZILBERMAN, 1989, p. 53).

O fantástico aqui atua como o elemento que atrai o leitor fazendo-o desvincular o que é lido da realidade imediata e permitindo que o leitor se envolva com o texto ajudando-o a apreciar o texto, mesmo com uma temática séria. Esse efeito é sentido conforme as situações se tornam mais absurdas e mais simbólicas. Sabemos que o momento da recepção de uma obra não é um momento passivo, pelo contrário, o leitor está agindo sobre a obra.

A experiência estética não se distingue apenas do lado de sua produtividade, como criação através da liberdade, mas também do lado de sua receptividade, como “aceitação em liberdade” (JAUSS, 1979, p. 57)

A aceitação em liberdade, sendo primordial para a fruição da literatura fantástica, também permite que o leitor seja seduzido pela fantasia e possa com mais facilidade considerar e se posicionar sobre o que a obra está tematizando. A visão da atuação do leitor em relação à obra é necessária para mostrar como a “expectativa e a experiência se encadeiam e para saber se, nisso, se produz um momento de nova significação” (JAUSS, 1979, p. 50), ou seja, a expectativa do leitor e o que ele experimenta ao ler o conto se juntam para produzir um novo momento, um momento em que o leitor está sob o efeito estético proporcionado pelo texto.

Para caracterizar então a experiência estética pode-se pensá-la como um momento de emancipação do sujeito:

Em primeiro lugar, liberta o ser humano dos constrangimentos e da rotina cotidiana; estabelece uma distância entre ele e a realidade convertida em espetáculo; pode preceder a experiência, implicando então a incorporação de novas normas, fundamentais para a atuação na e compreensão da vida prática. E, enfim, é concomitantemente antecipação utópica, quando projeta vivências futuras, e reconhecimento retrospectivo, ao preservar o passado e permitir a redescoberta de acontecimentos enterrados (ZILBERMAN, 1989, p. 54).

A temática abordada pelo conto, sendo uma temática pertencente ao mundo real vivido pelo leitor, é abordada, então, utilizando certo distanciamento entre ela e a realidade cotidiana, permitindo que o leitor tenha uma visão menos comum do problema.

3. O SUCESSO DO FANTÁSTICO

A partir dessa breve análise é possível concluir que realmente a opção pela utilização do fantástico no conto Bárbara é efetiva em sua função de efeito causador de uma experiência estética. Não apenas aproxima o leitor da obra e do tema, como ajuda a seduzir o leitor, tornando-o um receptor consciente, que pode colocar suas experiências pessoais em jogo em contrapartida às situações fantásticas de consumo que o conto narra. O fantástico exerce uma atração nos leitores naturalmente por ter contato direto com o lúdico, assim Murilo Rubião, sendo devidamente propagados seus textos, terá ainda influência na produção crítica, acadêmica, e na produção literária que permearem o fantástico.

REFERÊNCIAS

RUBIÃO, M. O Pirotécnico Zacarias. São Paulo: Editora Ática, 1986.

ZILBERMAN, R. Estética da Recepção e Historia da Literatura. São Paulo: ATICA, 1989.

JAUSS, H. R. et al. A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução por Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

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