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O CURTA ILHA DAS FLORES: UMA REFLEXÃO SOBRE OS PROBLEMAS DO CAPITALISMO

Posted in Cinema, Política by leonardomeimes on 18/10/2010

O curta metragem Ilha das Flores (1989) tem como diretor Jorge Furtado, um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre. É também autor de O Homem que Copiava (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004) além de muitas minisséries e outros filmes. O filme em questão foi premiado com o Urso de Prata de melhor curta-metragem no Festival de Berlim (1990) e com o prêmio de melhor curta do Festival de Gramado no mesmo ano.

Ele aborda a estrutura de uma sociedade capitalista baseada na produção, comércio e no trabalho, com fim único de obtenção de lucro e as desigualdades decorrentes desses fatos. O curta faz isso de forma inovadora que atrai a atenção do espectador e o faz analisar as questões políticas e sociais que são apresentadas.

O filme é produzido em formato de colagem e ligação dos elementos que são vistos: inicia em uma produção de tomates e percorre o caminho deles até a Ilha das Flores (depósito de lixo), no rio Guaíba, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Durante esse percurso todos os elementos citados recebem uma caracterização, uma descrição. Por exemplo, o ser humano é descrito como um mamífero, bípede, com tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. Outros elementos como dinheiro, lucro e trabalho são também caracterizados de uma forma envolvente e, muitas vezes, irônica.

O filme começa com a frase “Este não é um filme de ficção, existe um lugar chamado Ilha das Flores” o que já o coloca como uma obra que reflete sobre a realidade  apesar de criar uma história para pensar sobre ela. Presume-se então que o conteúdo da obra tem certo caráter documental ou histórico, e cria uma credibilidade para o que se apresenta em seu conteúdo. Em seguida, a frase “Deus não existe” mostra a postura humanista que o filme tomará, com uma visão histórica, idealista e realista do problema, sem brechas para crenças e superstições.

A primeira cena é em uma plantação de tomates, que já propicia reflexões sobre o que é um ser humano, a diferença entre os seres humanos e os outros mamíferos e sobre a capacidade do ser humano de modificar o mundo. Aqui há uma pequena crítica ao conhecimento humano que pode ser utilizado para o bem, exemplificado com a cultura de tomates, ou para o mal, quando aparece uma bomba atômica explodindo.

Da cultura de tomates vai-se ao supermercado, onde o dinheiro é trocado por este fruto por uma consumidora, o que resulta numa reflexão sobre a invenção do dinheiro e sobre o trabalho.  Nesse contexto, o dinheiro é visto como um facilitador na troca de mercadorias, e o trabalho, como uma forma de trocar sua produção por dinheiro. Aqui aparece o lucro, pela troca do trabalho por uma quantia de dinheiro um pouco maior do que a que foi necessária para realizá-lo. Há uma crítica ao lucro, mostrando que ele já foi proibido pela igreja e que hoje até mesmo as igrejas o buscam.

O tomate comprado pela consumidora sai do supermercado e vai servir de alimento para sua família, que, ao consumi-lo, produz lixo. Nesse ponto o destaque fica para a quantidade de lixo que se produz em uma cidade como Porto Alegre e as consequências do acúmulo do lixo nas cidades. Porém, para não conviverem com o mau cheiro, com as doenças e com o aspecto dos resíduos, os moradores da cidade mandam-nos para lugares longe, onde o lixo não perturbará. Em Porto Alegre, o local é a Ilha das Flores.

Nesse viés, o filme toma um ponto de vista de crítica mais contundente, enfocando as mulheres e crianças que moram na Ilha das Flores. Mostra como elas só têm acesso ao alimento jogado no lixo e rejeitado pelos porcos.

O filme mostra de forma didática e decisiva como o lucro, a posse e o dinheiro, ou melhor, a falta disso, coloca o ser humano abaixo dos porcos em uma lista de prioridades. Induz que o sistema de exploração do homem se consolida quando consegue o dinheiro pelo trabalho e o dinheiro se torna a única forma de obter alimentos e posses, retirando dos pobres a possibilidade de terem casa e comida.

O pobre é visto como um ser humano que perdeu sua capacidade de escolher, sua liberdade, não tem oportunidades em uma sociedade capitalista e tem que se conformar em viver dos restos de lixo, rejeitado pelos porcos. Ao se fazer uma linha de raciocínio partindo da primeira cena, na plantação, até a cena final, vê-se que todas as etapas dessa cadeia de eventos contribuem para a desumanização final. O fato de o produtor cobrar pelo alimento, buscando o lucro, já é uma corrupção no sistema e, resulta por fim, na impossibilidade dos menos favorecidos terem acesso aos alimentos.

O curta é indicado principalmente, para pessoas que querem ter uma visão das causas da pobreza, relacionadas a todos os pontos do sistema de consumo capitalista. Pode ser utilizado em sala de aula por professores como ponto de partida para discussões ou trabalhos, dando aos alunos um acesso bem didático a diferentes problemas sociais apresentados pelo documentário.

Leonardo Telles Meimes[1]


[1] Pós-graduando do curso de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira (PUCPR), Graduado em Letras – Potuguês/Inglês (PUCPR).

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3 Respostas

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  1. Fernanda said, on 19/10/2010 at 17:55

    Achei interessante e coloquei no meu amplify, se quiser que eu tire é só dizer. Não achei que fosse se sentir ofendido nem nada, por isso nem perguntei, esqueci…

    • leonardomeimes said, on 19/10/2010 at 18:26

      Claro que não tem problema, só diz que é meu =)

      • Fernanda said, on 19/10/2010 at 18:55

        não se preocupe, eu deixei os créditos ^^


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