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AMOR POR UM FIO

Posted in Literatura by leonardomeimes on 13/11/2009

Germino acordou, ao espelho riu da velhice e, ao sentar-se na mesa do café, mais do que perfeitamente posta, riu da solidão. Comeu torradas que a experiência de anos transformou em deliciosas guloseimas. No meio do café um estranho estremecimento, levantou olhou para os lados, jogou um talher em cima do pires, correu à varanda com frenética certeza e dali contemplou o jardim. Sim, desde que voltara da guerra a vida se resumia a uma pensão de soldado, um casebre e um jardim invejável à beira do parque de nome Redenção.

Toda manhã, antes mesmo de tomar café, Germino em fervoroso ritual conversava com as plantas de seu jardim, contava histórias e as afagava. Ao passar por ali ele via tantas e tantas plantas, só não via a que com grande amor plantara antes de ir-se para os campos de combate. Passava ele as tardes em sua janela admirando, refletindo e gozando de suas memórias, ali ele não via mais sua roseira. Lindas que eram tais Rosas, das quais ele cuidara antes da guerra.

As crianças que vinham ao parque brincar o conheciam como o velho e sempre vinham à sua casa ouvir as histórias de guerra e de amor que Germino conhecia. A que ele mais gostava de contar era aquela, de uma Rosa, em que ela, cansada de esperar, sumiu pelo mundo em venturas. As crianças, encantadas com o absurdo de uma rosa sair ao mundo, riam e perguntavam ao velho como era tal rosa. …Uma beleza de raiz na terra, de dança ao vento e de louvor à lua! E como… Ainda a lembra pequena em broto, dando gostosas risadas de quem não tem com o quese preocupar, era incrível. Tinha a maior gana do mundo pela felicidade e mal tinha nascido. Germino conta sobre um passeio em que foram ao parque, ele já homem, ela ainda delicada vida, pincelada a ouro. Que surpresa quando a garota mais do que seriamente decidiu ali criar raízes. Decidiu que se não fosse ali, sua vida não seria sua. Germino argumentou, tens que viver onde foram plantadas suas raízes primeiras, aqui em meio ao mundo serás infértil. Ela, malcriada criatura, respondeu, …não há tal éden fingido, lá estava em meio a damas da noite que não fazem jus a quem eu sou. Pois, assim, se mudaram. Para essa mesma casa.

S_Jardim_dEssas e outras historias eram repetidas à exaustão por Germino, pois se não as contasse seu peito velho talvez não aguentasse a pressão. Além disso as crianças sempre queriam mais. Eis que Germino lembra de outra época em que tal bruaca, estava crescendo, risonha e sonhadora. Já saia sozinha, cuidava de si própria, não tinha medos, aflições, muito menos malícias. Em pouco tempo ela estava dando flor, avisando os homens que tinha cor. Germino havia de se encontrar com amigos, discutir e comentar a situação mundial. Ela disse que já estava em idade de aprender sobre o mundo e foi junto, ao encontro, Germino teve a impressão que algo estava muito estranho e que as atenções de sua louca criatura haviam mudado, de sua pessoa para alguém ou algo. Para complicar mais a situação Germino foi à guerra.

Viu-se ser levado para longe, não à força, mas com muita angústia. Pediu-lhe que ali ficasse e esperasse sua volta, cravasse as raízes da futura casa que construiriam, pois ao voltar da guerra pretendia ele estar melhor de vida. A verdade é que quando voltou só havia a terra. Germino em grande tristeza, cuidou de seu jardim, mexeu com a terra e envelheceu. O jardim contém várias espécies colhidas no parque e até agora conserva um local em aberto com um espaço, bem no meio do jardim. Ali, diz ele às crianças, será plantada de novo minha Rosa.

Num segundo dia ele acorda, o mesmo ritual, e após o café da manhã, mesa para dois, se senta à varanda. Como te acho? Se no jardim das rosas, que é teu nome, sua raiz não mais cresce. Se nas cores camélias de seu vestido coralino sente-se perfume de ouro. Suspira… Como te achar se nos catálogos não constas, espécime raro. E reflete.. será que a brisa que aqui é tão fria lhe fez mal, ou será que esta mesma brisa ainda lhe afaga, acaricia, as pétalas? O orvalho que aqui surge todas as manhãs ainda te alimenta? E o lago, no qual  quis cravar raízes, por que o deixou?

Num terceiro dia ainda, Germino se dirige diretamente para a varanda, não mexeu no jardim, não se olhou no espelho e nem tomou café. Em seu coração, viu o pequeno circulo de terra, ainda a esperar as raízes que um dia lhe plantarão. Te acho em algum vaso ocre? Em meio a matas de concreto e piche? Ao olhar para tal jardim, Germino tem mais do que apenas uma melancolia, que talvez venha em menor quantidade que os outros sentimentos. Germino, espera, pois Rosa torna fácil aguentar e entender o mundo e tudo. Quando se deita à noite, Germino curte sua solidão.

Leonardo Meimes

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